domingo, 17 de maio de 2009

POESIA RETRÔ


O quadro em destaque na capa do blog e nesta postagem é um auto-retrato de Albrecht Dürer


INTRODUÇÃO

Encontram-se na atualidade diversos escritores em diversas tendências, sendo cada uma de importância para a pluralidade literária. Um escritor é inspirado pela sociedade que vive e também pode utilizar-se do escapismo para compor obras diferentes do mundo que vive. A classificação literária, do mesmo modo que a musical, não pode almejar “rotular” o escritor e sim classifica-lo num estilo determinado para facilitar a compreensão da obra bem como a divulgação dela. O objetivo deste texto é orientar os escritores a respeito do que vem a ser a poesia retrô.

Milita ao lado do vanguardismo, a vanguarda retrô, que consiste em fazer novas coisas inspiradas no passado. Claro que toda obra produzida hoje possui alguma referência do passado literário, porém há poesias que deixam bem explícita a influência clássica numa ousadia vanguardista, assim como na moda.


CARACTERÍSTICAS:

Algumas características da poesia no estilo retrô:

-presença da métrica, rima em alguns texto e freqüente uso do soneto:

[...]
Algumas vezes, ponho-me à janela
Serenamente, toca-me uma luz....
Algo azul, bom ardor que me seduz!
Verdadeira lembrança meiga e bela.
[...]

Rommel Werneck

Eis acima um quarteto de um soneto em moldes e tema tradicionais

-Temas isolados do cotidiano, sempre relacionados ao amor, reflexão, morte, passado, mitologia, religião etc:

Incenso de fulgor e toque ralos
Exala docemente essas fragrâncias
Que lavam minhas dores, minhas ânsias
No ardor purificante de seus halos.

[...]
Katatonic. INCENSO



-Figuras de linguagem para dar mais intensidade e uso de arcaísmos para reforçar o passado e ainda a ordem indireta para o texto não parecer cotidiano e percebe-se também um inclinação para a tristeza, uma vez que hoje há mais referências à auto-ajuda, à felicidade do que antes:

[...]
Nos negros olhos: cor viva do tédio
As vestes lutuosas, pretas, góticas...
Curvas no corpo tão belas e eróticas...
Nos negros olhos: cor viva do tédio
[...]

Rommel Werneck


Quando a última corda soar no céu noturno
E a rouca manhã despertar na aurora,
Gabriel Rübinger. AO ROMPER DA MANHÃ

*Quando no céu noturno a última corda soar
E na aurora despertar a rouca manhã


No soneto Demônio Angelical, usei referências barrocas como o contraste e o conflito e na estrofe acima o paradoxo “cor viva do tédio”. E no trecho de Rübinger vemos a ordem indireta sendo o trecho em ordem direta o com asterisco

O vaso de alabastro e de oferendas
Dedicado ao supremo deus Sol: Febo...
''Eu te dediquei mil flores e prendas,
Pálido virgem, lânguido mancebo! ''

[...]

No soneto Jóia foram utilizadas palavras em desuso ( mancebo, longínquo, prisco), aliás o próprio título de Apolo (Febo) encontra-se em desuso e mitologia é algo clássico

Elegia Segunda
Dorme, sombria, a Lua no jazido
Coberto de mármore contrito e gelado.
A cidade dorme, o tempo está parado
E há poucos passos no espaço dormido.
O bosque de éter está envolvido,
A bruma percorre a dentro dos bordos.
Nas lápides cinzas dos corpos balordos
Caminha a Senhora Da Foice, divaga,
Percorrendo, álgida, a vivência vaga,
Dos humanos, tão frágeis tão fordos
[...]. Gabriel Rübinger

[...]
Idolatro-te na pulcra paisagem
Negas-me teu ósculo pervertido
Espero-te dama de cortês linhagem
Não chegas... Sal do meu olhar vertido
[...] Denise Severgnini. ROMANESCO


Os dois poemas acima expressam a tristeza de modo diferente, enaquanto Elegia Segunda tematiza a morte, o poema de Denise Severginini focaliza a vassalagem e conquista amorosa num clima quase medieval, (ou medieval mesmo!), além dos arcaísmos utilizados que favorecem a intenção do texto.

-Uso da epígrafe/ mote não como muitos fazem atualmente apenas colocando a epígrafe como parte do poema, mas como uma inspiração do mesmo modo como faziam os clássicos poetas.

NO TEMPLO DO TEMPO
'''The Ocarina of Time opened the door.
The Hero of Time, with the Master
Sword, descended here.'' 1
Nintendo. The Legend of Zelda: Ocarina of Time.

Templo do tempo, lúcido transporte
Onde o pequeno moço da floresta,
Nosso herói, ganha vida, fica forte
E recebe a coragem alta e honesta.
[...]

Rommel Werneck
1Retirado do jogo de vídeo game The Legend of Zelda: Ocarina of Time. Trad.: A Ocarina do Tempo abriu a porta. O Herói do Tempo, com a Espada Mestra, surgiu aqui.

Cavaleiro Noturno
Luna mihi tremulum praebebat lumen eunti. (Ovídio, Heróides; 18.61)

I

sou um cavaleiro bardo
da aurora medieval.
num tropel vivo ofegante,
atiro flechas no mal.
[...]
Gabriel Rübinger

Em No Templo do Tempo, utilizei como epígrafe um trecho de um jogo de vídeo game mesmo porque o foco do texto é o jogo em si, mas banhado na atmosfera épica e heróica, modernidade e tradição. No longo texto de Rübinger, nota-se uma epígrafe retirada de umsa obra literária da Antiguidade Clássica.

-estrangeirismos diferentes dos convencionais e às vezes fora da língua inglesa. No fragmento do soneto abaixo, temos um estrangeirismo em latim:

[...]
Dó e caritas, amor, tudo tão só.
Só! Sem cor, sem ninguém, sem luz, sem fim!
Afundando-se neste rubro mangue...
[...]
Rommel Werneck SÓ


-uso da mesóclise e das formas pronominais “tu e vós” em oposição a “você” e “a gente”:

Impassível! Meu homem dominador!
Inflexível! Eu te amo doce ilusão!
Incrível! Morder-te-ia amarga paixão!
Insensível! Tu me causas dura dor!
Rommel Werneck. INVISÍVEL

De tanto querer-te eu quis-te
Mais longe que o fim do mundo!
Cavei mais que um poço profundo,
Bem sei que tu sabes! Tu viste.
Gabriel Rübinger. ANTÍTESES TUAS

Amo-vos minhas pálidas lembranças
Banhadas nas cascatas mais oníricas
Amo-vos pelas vozes belas, líricas...
E por jamais trazerdes esperanças!
Rommel Werneck. LOST PAST

Blog Poesia Retrô Poesia de Sempre
http://poesiaretroapoesiadesempre.blogspot.com/

KATATONIC. www.recantodasletras.uol.com.br/autores/carlosandrepaes

RÜBINGER, Gabriel. www.recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=20577

SEVERGNINI, Denise. www.denisesevergnini.recantodasletras.com.br/

WERNECK, Rommel. http://recantodasletras.uol.com.br/autores/rommelwerneck


O quadro em destaque na capa do blog e nesta postagem é um auto-retrato de Albrecht Dürer


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