terça-feira, 28 de dezembro de 2010

LUZ SEM LUZ


LUX SINE LUCE
 
 

Ah! Luz libidinosa que irradia
E atormenta por ser inacessível.
Este meu sonho tão puro e impossível
É a mais amarga e doce fantasia!


Esta imagem divina e inesquecível,
Pesadelo terrível, poesia...
A beleza na luz sem luz horrível,
Eis a perfeita dor: quanta agonia!


Esta luz! Esta noite! Esta tristeza!
Tudo isto me levando a uma paixão,
Pois desde que vi esta luz beleza


Nunca mais conheci a vida, a razão!
Luz sem luz, impureza da impureza,
Esta luz que se chama escuridão!


Rommel Werneck 

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

FELIZ DIA DOS PAIS! kkkk





É isso aí, Paizão! Corta o filho! CORTA!
hahaha




A ÁRVORE DA SERRA


— As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!


— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pos almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma! ...


— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:
«Não mate a árvore, pai, para que eu viva!»
E quando a árvore, olhando a pátria serra,


Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

AUGUSTO DOS ANJOS

domingo, 12 de dezembro de 2010

A PRINCESA DOS POETAS



MAHABARATA



Abre esse grande poema onde a imaginativa
De Vyasa, num fragor ecoante de cascata,
Tantas façanhas conta, e dessa estrênua e diva
Progênie de Pandu tantas glórias relata!



Ora Kansa, a suprema encarnação do Siva,
Ora os suaves perfis de Krichna e de Virata
Perpassam, como heróis, numa onda reversiva,
Nas estrofes caudais do grande Mahabarata.



Olha este incêndio e pasma; aspecto belo e triste!
Caminha agora a passo este deserto areoso...
Por cima o céu imenso onde palpitam sóis...



Corre tudo, ofegante, e, finalmente, assiste
À ascensão de Iudhishthira ao suarga luminoso
E à apoteose final dos últimos heróis.



FRANCISCA JÚLIA


imagem retirada da Wikipédia e editada por mim 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

DA COSTA E SILVA


 
Verônica

 

O sangue que ilumina o pensamento,
Em forma eterna a vida reproduz;
Assim, a imagem do meu pensamento
Se não em sangue, há de gravar-se em luz.

Então, vereis ao vivo refletida,
Entre uma auréola de esplendor cristão,
A sombra interior da minha vida
A projetar-se do meu coração...

Sob esse aspecto místico e profundo,
Terei a transparência do cristal,
Ampliando a visão múltipla do mundo
Para uma vida sobrenatural.

E o que tenho de humano e de divino
Ante olhares profanos hei de expor,
Nas ascensões e quedas do destino,
Que foram meu Calvário e meu Tabor.

Mas, cauteloso, o espírito tristonho,
Ocultando seu trágico avatar
Sob a névoa translúcida do sonho,
Há de ser como a espuma sobre o mar.

E a luz, que vibra em iris no meu canto,
Revelará, talvez, sem eu querer,
Aos vossos olhos lúcidos de espanto
A beleza intangível do meu ser.
Da Costa e Silva




Paradise Lost

 

Por que me trouxe aqui o meu destino?
Por que de tão longe vim me prender por encanto
A Essa a quem tanto quis, a Essa que me quis tanto,
Que, unidos pela fé, vivemos para o amor?


Por que o lar que se fez, com o divino favor,
Na feliz comunhão de um afeto tão santo,
Num momento fatal de dúvida e de espanto,
A morte vem encher de saudade e de dor?


Por que, se eu tenho fé, se vem fazer, no entanto,
Tua vontade, em vão, contra a minha, Senhor,
Que, resignado e bom, já hei sofrido tanto?


Assim, a interrogar minha esfinge interior,
Ergo ao longínquo azul os meus olhos em pranto,
Ó meu último bem! ó meu único amor!


Da Costa e Silva 

 


Biografia


Antônio Francisco da Costa e Silva nasceu em Amarante, no Piauí, em 29 de novembro de 1885. Formou-se pela Faculdade do Direito do Recife. Foi funcionário do Ministério da Fazenda, tendo ocupado os cargos de Delegado do Tesouro no Maranhão, no Amazonas, no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Viveu não só na capitais desses estados, mas também, por mais de uma vez, em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Jornalista. Recolheu-se ao silêncio, demente, em 1933. Faleceu em 29 de junho de 1950.

Publicou os seguintes livros de poemas:
Sangue (1908), Zodíaco (1917), Verhaeren (1917), Pandora (1919) e Verônica (1927). Organizou ele próprio uma Antologia de seus versos, cuja primeira edição é de 1934. Posteriormente saíram mais duas edições; a última em 1982. De suas Poesias Completas publicaram-se três edições: em 1950, 1975 e 1985.


Extraído do Jornal da Poesia

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

LUTO


Minha foto com o escritor em 2004 na Academia de Letras da Grande São Paulo,
em São Caetano do Sul numa das várias tardes de quarta-feira em que me encontrava com seu presidente fundador patra as aulas.




EM LUTO pelo falecimento do gigante



RINALDO GISSONI
Fundador da Academia de Letras da Grande São Paulo


Requiescat in pace






RINALDO GISSONI






Nasceu em 15 de abril de 1916, em São Paulo, capital. Faleceu em 06 de novembro de 2010 em Santo André, São Paulo, aos 94 anos.
Casou-se com Antonieta A. Puttini Gissoni com quem viveu por 67 anos. Teve com ela cinco filhos: Maria Guaraciaba Gissoni Fenicio, Maria Guaraciema Gissoni Beber, Mário Ubirajara Gissoni, Rinaldo Ubiratan Gissoni e Celso Irapuan Gissoni. Oito netos e quatro bisnetos.


Médico Veterinário, Farmacêutico e Advogado, mas, antes de tudo, romancista, contista e poeta, enfim, um literato.


Ainda estudante, em Pouso Alegre onde morava, já demonstrando sua paixão pelas letras, fundou, os periódicos O Futurista – de caráter literário e O Veterinário – de caráter científico, e o Centro Literário Joaquim Queiroz Filho.


Durante a segunda guerra mundial, foi convocado como Oficial, para o serviço ativo do Exército, quando prestou serviços na então Zona de Guerra Nordeste-Este, recebendo, pela sua cooperação ao esforço de guerra do Brasil, a Medalha e Diploma de Guerra.


Regressando à vida civil, ingressou no Ministério da Agricultura, sendo locado em Joaçaba, Santa Catarina, como Inspetor Federal na Área Sanitária onde fundou, com Raul Pereira, o Joaçaba Jornal.


Em l952, foi transferido para exercer a Inspeção Federal na região do ABC, onde, a bem da verdade, começou a Clínica Veterinária.
Em Agosto de 1981, depois de diversas tentativas frustradas, fundou, em São Bernardo do Campo - SP, com o apoio do Dr. Walker da Costa Barbosa e outros literatos do ABC, a Academia de Letras da Grande São Paulo, que em l988 foi transferida para São Caetano do Sul-SP. Ali obteve a sua sede oficial, hoje, instalada no Complexo Educacional Fundamental da Cidade, onde atende àqueles que têm interesse pela Literatura. A Entidade foi considerada de “utilidade pública” pelo Decreto nº 767/91 de 03-04-1991. Rinaldo Gissoni foi seu Presidente por vinte e seis anos.


Sua Obra é extensa e consiste de muitas poesias e crônicas publicadas em diversos jornais do País. Tem, também, trabalhos de pesquisa de fundo técnico-científico no campo da Medicina Veterinária. Autor de várias obras, muitas ainda inéditas, já dentro da Nova Ortografia entre elas, a reedição de “Os Mistérios da Montanha” (com novos contos), Poesias (ainda sem título), “O Teatro do Efêmero” – peças teatrais, prontos para publicação. “Memórias sem Retoque” – inacabado e Poesias (ainda sem título).






Obras publicadas:




DIMENSÕES HUMANAS –contos – 1976
BRUMAS – poemas - l981
PEDESTAL INACABADO – romance – l983
OS MISTÉRIOS DA MONTANHA – contos – 1989
O ENÍGMA ROSÂNGELA – romance - l993
IRISAÇÕES FINAIS – poesia – 2000
BRAÇOS ABERTOS – romance – 2003
O ELEMENTO RAM – policial – 2007
ALÉM DAS TREVAS – contos – 2009 – a ser lançado in memorium




Biografia por Maria Guaraciaba Gissoni Fenicio








quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

INDRISO EM DECASSÍLABO HEROICO


Caspar David Friedrich
Tetschener Altar, Gesamtansicht, Szene: Das Kreuz im Gebirge
Óleo sobre Tela (1807) 



PLENO DE ESPLENDOR



"O grito que ora prendo é só por ti..."
Ronaldo Rhusso


Grita a Cruz as virtudes esquecidas
Gotejando fulgores, uns matizes
Que invadem minhas lúgubres feridas...


Há sacrossantas flamas que, em deslizes,
Encantam-me num êxtase de vidas
Dando alvuras aos sonhos infelizes


E penso que és tão pleno de esplendor


Porque o cedes a todos com amor!


Rommel Werneck



Escrito no fórum Descanso das Letras 

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

MOACIR DE ALMEIDA



Moacir de Almeida


Patrono da cadeira nº 40 da Academia Belo-Horizontina de Letras, segundo Júlio Pinto Gualberto em seu O Gênio Poético de Moacir de Almeida, nasceu Moacir de Almeida no dia 22 de abril de 1902, tendo falecido em 30 de abril de 1925, muito jovem, como se pode notar. Gênio de qualidade singular teve pelo poeta parnasiano Alberto de Oliveira incluso um soneto seu em “Os cem melhores sonetos brasileiros”, tendo constada sua lira em muitas outras antologias. Louvado foi de Agripino Grieco à Catulo da Paixão Cearense, que lhe dedicou versos à beira do túmulo. Assim descreveu-o Agripino Grieco, que privou do contato íntimo com o poeta:

“Pensando em Moacir de Almeida, revejo-o qual tantos anos o vi, com seu ar de eterno convalescente. Talvez houvesse nêle certa inaptidão para a felicidade. Recitando, tinha a voz meio rouca, mas a beleza das cousas que ele celebrava conseguia embelezá-lo, e êle que era magro, comprido, deselegante, sem saúde, sem graça pessoal, sem eloqüência na conversação, transfigurava e prendia quem quer que o ouvisse. Sua face lanhada, torturada, de zigomas salientes, como que se iluminava à irradiação verbal de seu sonho. Ele que, palestrando, pouco entusiasmo patenteava pela vida e às vêzes confessava ter mêdo de tudo e ver tudo envolto na luz de um dia de eclipse, enriquecia-se, ao dizer versos, de mil tesouros ignorados.”

Diz Pádua de Almeida em Algumas Palavras da edição Poesias Completas de Moacir de Almeida, sem data, editora Zélio Valverde, “Moacir está para a amplitude poética naquilo que Augusto dos Anjos está para a profundidade”. Eis os dois sonetos que selecionamos para o querido leitor, mostrando as nuances entre os dois universos em que poeta  gravitava: a dor e o sonho.

***

IX

ESTRÊLA PERDIDA

Em meu olhar, meu coração maldito
Olhava-a; muda e ardente, triste e ardente,
A estrêla de ouro, dolorosamente,
Estendia-me os braços do Infinito.

Mas o sol abatia-me o vôo no poente,
Eu – o amante da estrêla – ávido e aflito,
Erguia os olhos para o azul bendito,
Erguendo os braços para o azul fulgente.

Mas, ai!Nas sombras, a adorada estrêla
Perdeu-se... E nunca mais tornei a vê-la
No coração da noite, a lampejar.

Hoje, torno a encontrá-la – quem diria! –
A iluminar minha aflição doentia
Dentro da noite azul do teu olhar...

In Soluços do Deserto

***

XVIII

NÔMADE

Triste e exhausto, arrastei-me por sombrias
Terras de angústia, aos astros a às tormentas,
Tendo nos olhos as visões violentas
De crucificações e de agonias.

Vales da morte, solidões nevoentas
Do tédio, abismos de paixões doentias,
Enchi de sangue; e fiz, das pedras frias,
Britar estrêlas em caudais sangrentas...

Nômade das paixões desesperadas,
Enchi de sonho todas as estradas
E o amor que todos têm – visão serena,

Que a vida de outros faz florir em chama, –
Só pude ouví-lo em bocas de gangrena,
Só pude tê-lo em corações de lama...

In Gritos Bárbaros

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

PARA QUEM AINDA NÃO ENTENDEU A SERVENTIA DOS VERSOS ISOMÉTRICOS, EIS AQUI NÃO UM EXEMPLO, MAS O EXEMPLO!!!





A VALSA


A. M.


Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim.
Na valsa
Tão falsa,
Corrias
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila
Serena,
Sem pena
De mim!


Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu vi!...


Valsavas:
- Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias
Pra outro
Não eu!


Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
não mintas...
- Eu vi!...


Meu Deus
Eras bela,
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem?!


Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu vi!...


Calado,
Sozinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!
Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos
Nem voz!


Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues
não mintas...
- Eu vi!...


Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então,
Qual pálida
Rosa
Mimosa,
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida
No chão!


Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
não mintas...
- Eu vi!...


Casimiro de Abreu




domingo, 14 de novembro de 2010

ILUSTRE PLÊIADE




Basta acessar a nova guia do blog e ver a surpresa. 


Como sempre, fica tudo mais bonitinho na hora de postar do que no resultado. Tenho problemas com formatação no blogspot, mas aos poucos vamos ajeitando. Infelizmente, listamos somente alguns membros da equipe, ainda estamos aguardando respostas e biografias. No entanto, os leitores já podem saborear. Deixem comentários aqui sobre o que precisamos mudar quanto à formatação.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

POESIA SOCIAL EM VERSOS LIVRES COM RIMAS





 BEM-VINDO AO MUNDO DAS ARTES CÊNICAS!




Bem-vindo ao mundo das Artes Cênicas!
Atrás do sólido pancake uma voz fala
Mais uma fria personagem se exala




Bem-vindo ao mundo das Artes Cênicas!
Não te surpreendas com um sorriso,
Pois nada aqui é de improviso




Bem-vindo ao mundo das Artes Cênicas!
Repara nos figurinos otários!
Viva em todos os cenários!



Bem-vindo ao mundo das Artes Cênicas!
Cuidado! Cuidado com a sonoplastia
Ébria sereia sem luxo e fantasia



Bem-vindo ao mundo das Artes Cênicas!
Lembra-te que há a plateia
Enquanto encenas majestosamente



Mas oh! Num relance de emoção
Sem querer algo ocorre...
O pancake borra e escorre.



Rommel Werneck
Publicado no Recanto das Letras em 10/11/2010
Código do texto: T2606959










 

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A CRUZ MUTILADA




Download aqui



Amo-te, ó cruz, no vértice, firmada
De esplêndidas igrejas;
Amo-te quando à noite, sobre a campa,
Junto ao cipreste alvejas;
Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,
As preces te rodeiam;
Amo-te quando em préstito festivo
As multidões te hasteiam;
Amo-te erguida no cruzeiro antigo,
No adro do presbitério,
Ou quando o morto, impressa no ataúde,
Guias ao cemitério;
Amo-te, ó cruz, até, quando no vale
Negrejas triste e só,
Núncia do crime, a que deveu a terra
Do assassinado o pó:



Porém guando mais te amo,
Ó cruz do meu Senhor,
É, se te encontro à tarde,



Antes de o Sol se pôr,
Na clareira da serra,
Que o arvoredo assombra,
Quando à luz que fenece
Se estira a tua sombra,



E o dia últimos raios
Com o luar mistura,
E o seu hino da tarde
O pinheiral murmura.

*


E eu te encontrei, num alcantil agreste,
Meia quebrada, ó cruz. Sozinha estavas
Ao pôr do Sol, e ao elevar-se a Lua
Detrás do calvo cerro. A soledade
Não te pôde valer contra a mão ímpia,
Que te feriu sem dó. As linhas puras
De teu perfil, falhadas, tortuosas,
Ó mutilada cruz, falam de um crime
Sacrílego, brutal e ao ímpio inútil!
A tua sombra estampa-se no solo,
Como a sombra de antigo monumento,
Que o tempo quase derrocou, truncada.
No pedestal musgoso, em que te ergueram
Nossos avós, eu me assentei. Ao longe,
Do presbitério rústico mandava
O sino os simples sons pelas quebradas
Da cordilheira, anunciando o instante
Da ave-maria; da oração singela,
Mas solene, mas santa, em que a voz do homem
Se mistura nos cânticos saudosos,
Que a natureza envia ao Céu no extremo
Raio de sol, pasmado fugitivo
Na tangente deste orbe, ao qual trouxeste
Liberdade e progresso, e que te paga
Com a injúria e o desprezo, e que te inveja
Até, na solidão, o esquecimento!

*


Foi da ciência incrédula o sectário,
Acaso, ó cruz da serra, o que na face
Afrontas te gravou com mão profusa?
Não! Foi o homem do povo, a quem consolo
Na miséria e na dor constante hás sido
Por bem dezoito séculos: foi esse
Por cujo amor surgias qual remorso
Nos sonhos do abastado ou do tirano.
Bradando – esmola! a um; piedade! ao outro.



Ó cruz, se desde o Gólgota não foras
Símbolo eterno de urna crença eterna;
Se a nossa fé em ti fosse mentida,
Dos opressos de outrora os livres netos
Por sua ingratidão dignos de opróbio,
Se não te amassem, ainda assim seriam.
Mas és núncia do Céu, e eles te insultam,
Esquecidos das lágrimas perenes
Por trinta gerações, que guarda a campa.
Vertidas a teus pés nos dias torvos
Do seu viver d'escravidão! Deslembram-se



De que. se a paz doméstica, a pureza
Do leito conjugal bruta violência
Não vai contaminar, se a filha virgem
Do humilde camponês não é ludíbrio
Do opulento, do nobre, ó Cruz. to devem;
Que por ti o cultor de férteis campos
Colhe tranquilo da fadiga o prémio,
Sem que a voz de um senhor, qual dantes, dura
Lhe diga: «É meu, e és meu! A mim deleites,
Liberdade, abundância: a ti, escravo,
O trabalho. a miséria unido à terra,
Que o suor dessa fronte fertiliza,
Enquanto, em dia de furor ou tédio,
Não me apraz com teus restos fecundá-la.»



Quando calada a humanidade ouvia
Este atroz blasfemar, tu te elevaste
Lá do Oriente, ó Cruz, envolta em glória,
E bradaste, tremenda, ao forte, ao rico:
«Mentira!», e o servo alevantou os olhos,
Onde a esperança cintilava, a medo,
E viu as faces do senhor retintas
Em palidez mortal, e errar-lhe a vista
Trépida, vaga. A cruz no céu do Oriente
Da liberdade anunciara a vinda.



Cansado, o ancião guerreiro, que a existência
Desgastou no volver de cem combates,
Ao ver que, enfim, o seu país querido
Já não ousam calcar os pés d'estranhos,
Vem assentar-se à luz meiga da tarde,
Na tarde do viver, junto do teixo
Da montanha natal. Na fronte calva,
Que o sol tostou e que enrugaram anos,
Há um como fulgor sereno e santo.
Da aldeia semideus, devem-lhe todos
D tecto, a liberdade, e a honra e vida.
Ao perpassar do veterano, os velhos
A mão que os protegeu apertam gratos;
Com amorosa timidez os moços
Saúdam-no qual pai. Nus largas noites
Da gelada estação, sobre a lareira
Nunca lhe falta o cepo incendiado;
Sobre a mesa frugal nunca, no estio,
Refrigerante pomo. Assim do velho
Pelejador os derradeiros dias
Derivam paru o túmulo suaves,
Rodeados de afecto, e quando à terra
A mão do tempo gastador o guia,
Sobre a lousa a saudade ainda lhe esparze
Flores, lágrimas, bênçãos, que consolem
Do defensor do fraco as cinzas frias.



Pobre cruz! Pelejaste mil combates,
Os gigantes combates dos tiranos,
E venceste. No solo libertado,
Que pediste? Um retiro no deserto,
Um píncaro granítico, açoutado
Pelas asas do vento e enegrecido
Por chuvas e por sóis. Para ameigar-te
Este ar húmido e gélido a segure
Não foi ferir do bosque o rei. Do Estio
No ardor canicular nunca disseste:
«Dai-me, sequer, do bravo medronheiro
O desprezado fruto!» O teu vestido
Era o musgo, que tece a mão do Inverno
E Deus criou para trajar as rochas.
Filha do céu, o céu era o seu tecto,
Teu escabelo o dorso da montanha.
Tempo houve em que esses braços te adornava
C'roa viçosa de gentis boninas,
E o pedestal te rodeavam preces.
Ficaste em breve só, e a voz humana
Fez, pouco a pouco, junto a ti silêncio.
Que te importava? As árvores da encosta
Curvavam-se a saudar-te, e revoando
As aves vinham circundar-te de hinos.
Afagava-te o raio derradeiro,
Frouxo do Sul ao mergulhar nos mares.
E esperavas o túmulo. O teu túmulo
Devera ser o seio destas serras,
Quando, em Génesis novo, à voz do Eterno,
Do orbe ao núcleo fervente, que as gerara,
Elas nus fauces dos bolcões descessem.
Então para essa campa flores, bênçãos,
Ou é saudade lágrimas vertidas,
Qual do velho soldado a lousa pede,
Não pediras à ingrata raça humana,
Ao pé de ti no seu sudário envolta.



*


Este longo esperar do dia extremo,
No esquecimento do ermo abandonada,
Foi duro de sofrer aos teus remidos,
Ó redentora cruz. Eras, acaso,
Como um remorso e acusação perene
No teu rochedo alpestre, onde te viam
Pousar tristonha e só? Acaso, à noite,
Quando a procela no pinhal rugia,
Criam ouvir-te a voz acusadora
Sobreelevar à voz da tempestade?
Que lhes dizias tu? De Deus falavas,
E do seu Cristo, do divino mártir,
Que a ti, suplício e afronta, a ti maldita
Ergueu, purificou, clamando ao servo,
No seu transe: «Ergue-te, escravo!
És livre, como é pura a cruz da infâmia.
Ela vil e tu vil, santos, sublimes
Sereis ante meu Pai. Ergue-te, escravo!
Abraça tua irmã: segue-a sem susto
No caminho dos séculos. Da Terra
Pertence-lhe o porvir, e o seu triunfo
Trará da tua liberdade o dia.»



Eis porque teus irmãos te arrojam pedras,
Ao perpassar, ó cruz! Pensam ouvir-te
Nos rumores da noite, a antiga história
Recontando do Gólgota, lembrando-lhes
Que só ao Cristo a liberdade devem,
E que ímpio o povo ser é ser infame.
Mutilado por ele, a pouco e pouco,
Tu em fragmentos tombarás do cerro,
Símbolo sacrossanto. Hão-de os humanos
Aos pés pisar-te; e esquecerás no mundo.
Da gratidão a dívida não paga
Ficará, ó tremenda acusadora,
Sem que as faces lhes tinja a cor do pejo;
Sem que o remorso os corações lhes rasgue.
Do Cristo o nome passará na Terra.


*

Não! Quando, em pó desfeita, a cruz divina
Deixar de ser perene testemunha
Da avita crença, os montes, a espessura,
O mar, a Lua, o murmurar da fonte,
Da natureza as vagas harmonias,
Da cruz em nome, falarão do Verbo.


Dela no pedestal, então deserto,
Do deserto no seio, ainda o poeta
Virá, talvez, ao pôr do Sol sentar-se;
E a voz da selva lhe dirá que é santo
Este rochedo nu, e um hino pio
A solidão lhe ensinará e a noite.


Do cântico futuro unta toada
Não sentes vir, ó cruz, de além dos tempos
Da brisa do crepúsculo nus asas?
É o porvir que te proclama eterna;
É a voz do poeta a saudar-te.


*


Montanha do Oriente,
Que, sobre as nuvens elevando o cume,
Divisas logo o Sol, surgindo a aurora,
E que, lá no Ocidente,
Última vez seu radioso lume,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.



Rochedo, que descansas
No promontório nu e solitário,
Como atalaia que o oceano explora,
Alheio ás mil mudanças
Que o mundo agitam turbulento e vário,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.



Sobros, robles frondentes,
Cuja sombra procura o viandante,
Fugindo ao Sol a prumo que o devora,
Nesses dias ardentes
Em que o Leão nos céus passa radiante,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.



Ó mato variado,
De rosmaninho e murta entretecido,
De cujas ténues flores se evapora
Aroma delicado,
Quando és por leve aragem sacudido,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.



Ó mar, que vais quebrando
Rolo após rolo pela praia fria,
E fremes som de paz consoladora,
Dormente murmurando
Na caverna marítima sombria,
Em li minha alma a eterna cruz adora.


Ó Lua silenciosa,
Que em perpétuo volver. seguindo a Terra,
Esparzes tua luz ameigadora
Pela serra formosa,
E pelos lagos que em seu seio encerra,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.



Debalde o servo ingrato
No pó te derribou
E os restos te insultou,
Ó veneranda cruz:



Embora eu te não veja
Neste ermo pedestal;
És santa, és imortal;
Tu és a minha luz!



Nas almas generosas
Gravou-te a mão de Deus,
E, à noite, fez nos céus
Teu vulto cintilar.



Os raios das estrelas
Cruzam o seu fulgor;
Nas horas do furor
As vagas cruza o mar.



Os ramos enlaçados
Do roble, choupo e til
Cruzando em modos mil,
Se vão entretecer.



Ferido, abre-o guerreiro
Os braços, solta um ai,
Pára, vacila, e cai
Para não mais se erguer.



Cruzado aperta ao seio
A mãe o filho seu,
Que busca, mal nasceu,
Fontes da vida e amor.



Surges; símbolo eterno,
No Céu, na Terra e mar,
Do forte no expirar,
E do viver no alvor!



ALEXANDRE HERCULANO