domingo, 30 de janeiro de 2011

HISTÓRIA DA LITERATURA

       A partir de agora, escreverei textos sobre a História da Literatura no Poesia Retrô.

       O primeiro texto é dedicado ao leitor e escritor Hilton Valeriano por ter dado a idéia assim como a todos os amigos e amigas de eventos reconstrucionistas.

        Estou há mais de um mês com o livro de Domício Proença Filho, acontece que o livro é tão maravilhoso que é difícil elaborar um texto, afinal, Romantismo, Simbolismo, Parnasianismo são épocas fascinantes! As postagens não serão na ordem cronológica, mas depois, farei um índice.


Que romântico!


Casper David Friedrich - O viajante sobre o mar de névoa, 1818.



Ilustrações da moda da época (Fonte: Moda de Subculturas)



Catedral de São Patrício, construída por James Renwick, Jr. em Nova York entre 1858 e 1878
                                                
 

“Se se morre de amor! — Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;”
   Gonçalves Dias


“Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras”
Álvares de Azevedo


“Contente, eu, por haver partido! Meu caro amigo, que é então o coração humano? Apartar-me de você, que tanto estimo, você, de quem eu era inseparável, e andar contente! Mas eu sei que me há de perdoar. Longe de você, todas as minhas relações não parecem expressamente escolhidas pelo destino para atormentar um coração como o meu?”
Goethe

“...ora na gótica catedral, admirando a grandeza de Deus e os prodígios do cristianismo...”
Gonçalves de Magalhães

“As notas sentidas e maviosas daquele cantar escapando pelas janelas abertas e ecoando ao longe em derredor, dão vontade de conhecer a sereia que tão lindamente canta. Se não é sereia, somente um anjo
pode cantar assim.”
Bernardo Guimarães


“Só me lembra  que um dia formoso 
Eu passei… dava o Sol tanta luz! 
E os meus olhos, que vagos giravam, 
Que fez ela? Eu que fiz? — Não no sei 
Mas nessa hora a viver comecei…”
Almeida Garrett



           Ouve-se muito falar em “que romântico!”. Basta pesquisar “poesia romântica” na internet e os principais resultados serão panfletinhos de quinta categoria, até certas revistas falam que “a estação será marcada por um ar romântico”, mas, se de fato for aplicado o conceito de Romantismo como estilo de época, glamour romântico não seria aquelas florezinhas feias e sim um aspecto de papel de parede, por exemplo.
          Julgar também que tudo que envolve amor é romântico seria o mesmo que classificar até mesmo Olavo Bilac como romântico. O amor foi tratado em todas as escolas literárias, mas com abordagens diferentes.

         
           Enquanto estilo de época, Romantismo é uma referência à escola literária que vigorou na primeira metade do século XIX . Poderia-se ainda falar em “Romantismos” como alerta Amaral et all., afinal, trata-se de um mar repleto de várias características e complexidades.

         Quando pensamos em poesia romântica, logo visitam nossa mente as imagens obscuras de poetas solitários tuberculosos no cemitério e um aspecto importante: a solidão.  Professor Domício Proença Filho afirma que um estilo de época não nasce da noite para o dia, é fruto de uma gradativa elaboração e, sendo assim, talvez o Romantismo e/ou a tendência pela solidão podem quase ter surgido no Barroco ou mesmo antes. A realidade é que estamos diante de uma estética assim como Moda, num eterno vai-e-volta, uma alternância. Não se poder negar aí o pequeno tempo que o Arcadismo teve para festejar suas liras no campo dos pastores. Antes de terminar o raciocínio sobre o surgimento da escola literária, reflitamos sobre o contexto histórico.



 Contexto Histórico

 
 Delacroix - A liberdade guia o povo



          Traçarei poucas considerações sobre História porque os livros didáticos talvez estejam mais coerentes neste aspecto. E, de fato, apesar de o contexto histórico ser importantíssimo, talvez o estudo dele seja menos revelador que as características românticas, afinal, algumas sofrem distorções e nosso foco é  justamente os aspectos.

          No século XVIII, o carvão foi descoberto como fonte de energia e várias inovações tecnológicas surgiram numa Inglaterra mais desenvolvida e livre, reflexo da Revolução Gloriosa (1688-1689). Na virada do século XVIII para o século XIX, a burguesia que tinha ascendido no fim da Idade Média já era a classe dominante. Sendo assim, surgiram várias idéias: o liberalismo econômico (a garantia de uma livre concorrência entre os indivíduos, sem intervenção do Estado) e o liberalismo político (igualdade de direitos e oportunidades independentemente de qual classe social pertencia o indivíduo).

          Em 1776, as treze colônias britânicas conquistam independência: os Estados Unidos. A luta pela independência espalha-se pelos outros países americanos. Em 1808, a família real portuguesa vem para o Brasil. Em 1822, nossa independência e em 1827, funda-se uma faculdade em São Paulo, este é o cenário do poeta ultra-romântico Álvares de Azevedo.
       
          A Revolução Francesa em 1789 foi uma grande revolta popular clamando por Liberdade, Fraternidade e Igualdade além de ser uma tomada do poder político pela burguesia. É neste espírito da época que o homem passa a ser marcado pelo egocentrismo, o eu como centro.

Idade Média: teocentrismo
Renascimento: antropocentrismo
Barroco: Teocentrismo X Antropocentrismo
Arcadismo: Iluminismo, antropocentrismo
Romantismo: egocentrismo.


 

Primeiros Passos


Porträt Goethes in der Campagna, gemalt 1787 in Rom
Johann Heinrich Wilhelm Tischbein


           Não é uma das tarefas mais fáceis compreender o início desta grande escola. O que se pode dizer é que após três escolas literárias iniciadas em Roma, o movimernto literário de contestação de regras e modelos surgiu na Alemanha e no Reino Unido, mas é difícil determinar uma data exata. Nos anos 1760, um ousado movimento antiluminista alemão chamado Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto) pregava a volta de uma poesia mística e a emoção sobre a razão. Bowra considera Songs of Innocence, de William Blake, o marco inicial em 1789. Paul Van Tieghem aponta Alemanha em 1795, Itália em 1816, Polônia em 1822 e Inglattera em 1798. Como se pode ver há várias opiniões, algumas contraditórias sobre como começou. 

           Um professor de teatro uma vez me contou que Romantismo vem de Roma, “porque os românticos queriam lutar como os romanos”, esta hipótese jamais poderia ser verdade, afinal, os homens românticos queriam se livrar da tradição greco-romana e apresentar o sofrimento exagerado como uma forma de heroísmo. A palavra romance é uma referência às narrativas medievais que colocavam seus heróis com valores idealizados e cristãos, eram personagens nobres como o Rei Arthur em busca do Santo Graal. Sendo assim, Horace Walpole (1717/1797), autor de O Castelo de Otranto inicia a retomada do medivalismo com romances históricos. Os famosos Poemas de Ossian, de Macpherson marcam o Romantismo na lira. Mas coube a outro escocês ficar famoso, Walter Scott, grande romancista histórico. 

            Na Alemanha, uma infinidade de autores: os irmãos Schlegel, Novalis, Tieck, Arnim, Bretano e Goethe, o autor mais difundido, autor do romance epistolar Os Sofrimentos do Jovem Werther, a história de um rapaz completamente apaixonado que não sendo correspondido decide se matar. Um indivíduo recorrer à morte fugindo dos problemas pode ser considerada uma atitude individualista e de extremo emocionalismo. Este é, com certeza, o romance “canônino” do Romantismo. 


 Madame de Staël. Autor: François Gerard


           A França conhece o movimento em 1800 com a escritora Mme de Staël e Chateaubriand, autor de Atala (1801). Portugal entra em contato em 1825 com Almeida Garrett enquanto o Brasil em 1839 com  Gonçalves de Magalhães no prefácio da peça Antônio José, primeira peça teatral brasileira, isto segundo Proença Filho. Já os outros livros indicam Suspiros Poéticos e Saudades e a fundação da Niterói: Revista Brasilense, ambos em 1836 como marcos iniciais. 

          Sobre o teatro ainda é possível dizer que se trata da primeira peça própria para o teatro, já existiam peças teatrais de Anchieta, porém o Brasil ficou durante muito tempo sem a intervenção de educação dos jesuítas o que deve ter atrasado nossa produção teatral.




 Características




Este é o ponto que talvez mais interesse os escritores atuais, afinal, será conhecendo as características que poderemos fazer releituras. Além do mais, há muita distorção dos elementos românticos.

“Não há regras e nem modelos”. Será? Então porque houve na década de 1870 a Batalha do Parnaso? A frase acima do francês Victor Hugo realmente representa a liberdade de expressão como um aspecto da estética romântica, mas o Realismo causou mal-estar entre os românticos, porque, na verdade, os românticos tinham sim as suas regras, mesmo que uma delas fosse a liberdade individual.



Victor Hugo. Autor: Comte Stanisław Julian Ostroróg dit WALERY (1830-1890)



- preferência por versos heterométricos e formas livres:

Os versos românticos estavam lá embaixo, no fim da página ou da outra. “Spleen e Charutos” de Álvares de Azevedo é tão longo que possui divisões, subtítulos como se fossem capítulos, e não estamos falando de um poema épico. 

O uso de versos com diferentes metros já existia antes, mas no Romantismo tornou-se comum. Basta ver Gonçalves Dias em “I-Juca Pirama

Havia quem cultuasse os isométricos com certeza, mas os poemas eram longos e uma preferência pelas formas livres, tanto é que os versos de redondilha (5 e 7 sílabas) estavam em moda por trazerem a tradição medieval popular.

Isto não significa que não tivemos belíssimos sonetos, pelo contrário, a terza rima mais famosa da língua portuguesa foi escrita pelo ultra-romântico Álvares de Azevedo. Goethe, o maior escritor romântico da Alemanha foi propagador do ghazal, a forma fixa árabe.

Os versos livres também surgiram nesta época e foram propagados pelo grande poeta Walt Whitman. 


“Chore a morte do filho o pai cansado,
Que somente por seu na voz conhece.
— És livre; parte.
      — E voltarei.
             — Debalde.
— Sim, voltarei, morto meu pai.
             — Não voltes!
É bem feliz, se existe, em que não veja,
Que filho tem, qual chora: és livre; parte!”
Gonçalves Dias



- interação com a natureza:
No Arcadismo, a natureza é somente decorativa diferentemente do Romantismo em que ocupa um papel de maior importância, há um culto da natureza na evasão seguindo o mito do “bom selvagem” de Rousseau. Porém, a natureza pode ser confidente do eu lírico, ela também pode chover, trovejar e ser noite quando o eu lírico esta triste, por exemplo. Além do mais, a religiosidade pode-se dar na manifestação de Deus na natureza. Lembremos da importância da natureza nas cantigas medievais. 

     “Verdes mares que brilhais como líquida esmeralda aos raios do Sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros.

       Serenai verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas.”
José de Alencar


- imaginação criadora:
O objetivo do Romantismo é justamente não retratar a realidade, criar mundos imaginários e acreditar na realidade dos mesmos.

“Eu amo a noite taciturna e queda!
Amo a doce mudez que ela derrama,
E a fresca aragem pelas densas folhas
Do bosque murmurando:
Então, malgrado o véu que envolve a terra,
A vista, do que vela enxerga mundos,
E apesar do silêncio, o ouvido escuta
Notas de etéreas harpas.”
Gonçalves Dias


- idealização da mulher:
Na verdade, este tópico pode ser também estendido também ao homem já que o Romantismo é uma escola de idealizações, basta ver os heróis românticos como o índio e o cavaleiro medieval. Acontece que a mulher romântica é vista como uma virgem perfeita e há momentos também de femme fatale, este perfil contraditório também existe na Idade Média e, sobretudo, no Barroco.
 “Eu a quereria virgem na alma como no corpo. Quereria que ela nunca tivesse sentido a menor emoção por ninguém. Nem por um primo, nem por um irmão... Que Deus a tivesse criado adormecida na alma até ver-me, como aquelas princesas encantadas dos contos que uma fada adormecera por cem anos. Quereria que um anjo a cobrisse sempre com seu véu, e a banhasse todas as noites do seu óleo divino para guardá-la santa... Quereria que ela viesse criança transformar-se em mulher nos meus beijos.”
Álvares de Azevedo


     “Lúcia não disse mais palavra; parou no meio do aposento, defronte de mim.
      Era outra mulher.
      O rosto cândido e diáfano, que tanto me impressionou à doce claridade da lua, se transformara completamente: tinha agora uns toques ardentes e um fulgor estranho que o iluminava. Os lábios finos e delicados pareciam túmidos dos desejos que incubavam. Havia um abismo de sensualidade nas asas transparentes da narina que tremiam com o anélito do respiro curto e sibilante, e também nos fogos surdos que incendiavam a pupila negra.”
José de Alencar


José de Alencar


- escapismo ou evasão:
Consiste na fuga da realidade para o mundo idealizado, o sonho, tempos distantes ou mesmo a solução de tudo na morte, daí, outras características como o pessimismo e o passado.
“Já sinto da geada dos sepulcros
O pavoroso frio enregelar-me...
A campa vejo aberta, e lá do fundo
Um esqueleto em pé vejo a acenar-me...
Entremos. Deve haver nestes lugares
Mudança grave na mundana sorte;
Quem sempre a morte achou no lar da vida
Deve a vida encontrar no lar da morte.
Vamos. Adeus, ó mãe, irmãos, e amigos!”
Laurindo Rabelo


Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto o poento caminheiro...
Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro...
Álvares de Azevedo


-egocentrismo, subjetivismo e emoção acima da razão:
Como é de se esperar, há um culto ao individualismo e com isso, o confessionalismo, os textos servem como refúgio, a vida pessoal interfere na obra. Além do mais, a linguagem é muito subjetiva, pessoal colocando sempre a emoção acima da razão exageradamente.
“Era uma noite: - eu dormia...
E nos meus sonhos revia
As ilusões que sonhei!
E no meu lado senti...
Meu Deus! por que não morri?
Por que no sono acordei?”
Álvares de Azevedo



- religiosidade:
Enquanto a mitologia greco-romana é cultuada nas escolas “apolíneas” (Renascimento, Arcadismo e Parnasianismo), o cristianismo aparece nas escolas dionisíacas (Idade Média, Barroco, Romantismo e Simbolismo). A religiosidade é uma forma de contestar os valores materialistas e científicos do século das luzes (século XVIII) e representa uma cultura nacional e não uma cultura universal como a mitologia além de ajudar no retorno ao medievalismo. Deus também aparece, algumas vezes, em manifestações da natureza produzindo assim o panteísmo.

A religiosidade é algo tão nítido no início do Romantismo brasileiro que Ronald de Carvalho chega a dividir a escola em quatro grupos: poesia religiosa, poesia da natureza, poesia da dúvida e poesia social.

“Livro sagrado,
Vem consolar-me,
Vem saciar-me
Na minha dor.
Meu peito ansiado
De ti carece,
Sem ti falece
O meu vigor.”
Gonçalves de Magalhães

“Amo-te, ó cruz, no vértice, firmada
De esplêndidas igrejas;
Amo-te quando à noite, sobre a campa,
Junto ao cipreste alvejas;
Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,
As preces te rodeiam;”
Alexandre Herculano




- retorno ao passado e medievalismo:

Ao invés da clássica retomada greco-romana, os românticos preferem a Idade Média como fonte de inspiração, além deter sido a época de formação dos países (nacionalismo), possui a atmosfera misteriosa e distante, pois também é uma forma de evasão. Será nesta época que o errôneo conceito de “Idade das Trevas” será apagado aos poucos, basta ver as igrejas que novamente adquirem o estilo gótico como Catedral de Saint Patrick, em Nova York.

“O sol ia já em alto quando o grito de Allah hu Acbar! soou no centro dos esquadrões do Islame. Era a voz sonora e retumbante de Tárique. Repetido por milhares de bocas, este grito restrugiu e ecoou, como o estourar de trovoada distante, pelos pendores das serras e murmurou e perdeu-se pelos desfiladeiros e vales. A cavalaria árabe, enristando as lanças, arremessou-se pela planície e desapareceu num turbilhão de pó.
— Cristo e avante! — bradaram os godos: e os esquadrões de Roderico precipitaram-se ao encontro dos muçulmanos.”
Alexandre Herculano



 Naufrágio - Turner




- nacionalismo e valorização do popular:

Um complemento do aspecto acima. Enquanto na Europa o cavaleiro medieval é idealizado, o índio torna-se o genuíno herói brasileiro. Esta foi a época de coletar as narrativas orais e produzir uma grande riqueza da literatura: os contos de fada, veja os irmãos Grimm e Hans Christian Andersen, grandes homens do folclore.

“Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.”
Gonçalves Dias

- gosto pelo noturno:
As horas embaixo do Sol são do cotidiano, ou seja, fazem parte da realidade. O romântico prefere o noturno. Isto está inserido num contexto histórico em que a noite passou a ser “conquistada”, isto é, a época da iluminação pública pelo gás que facilitou as idas aos teatros, aos bares, saraus e soirées.

      “Por que te havia eu de amar, ó sol, se tu és o inimigo dos sonhos do imaginar; se tu nos chamas à realidade, e a realidade é tão triste?
      Pela escuridão da noite, nos lugares ermos e às horas mortas do alto silêncio, a fantasia do homem é mais ardente e robusta.
      É então que ele dá movimento e vida aos penhascos, voz e entendimento às selvas que se meneiam e gemem à mercê da brisa noturna.
      É então que ele colige as suas recordações; une, parte, transmuda as imagens das existências que viu passar ante si e estampa nas sombras que o rodeiam um universo transitório, mas para ele real.”
Alexandre Herculano

- senso de mistério:
Consiste na visão pessoal da realidade sempre numa atmosfera de terror e sobrenatural. Está ligada ao pessimismo.

“Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso,
Que te elevas da noite na orvalhada?
Tens a face nas sombras mergulhada...
Sobre as névoas te libras vaporoso ...

Baixas do céu num vôo harmonioso!...
Quem és tu, bela e branca desposada?
Da laranjeira em flor a flor nevada
Cerca-te a fronte, ó ser misterioso! ...

Onde nos vimos nós? És doutra esfera ?
És o ser que eu busquei do sul ao norte...
Por quem meu peito em sonhos desespera?

Quem és tu? Quem és tu? - És minha sorte!
És talvez o ideal que est'alma espera!
És a glória talvez! Talvez a morte!” 
Castro Alves

- pessimismo:

“Não achei na terra amores
Que merecessem os meus.
Não tenho um ente no mundo
A quem diga o meu - adeus.”
Junqueira Freire

- reformismo:
Notável principalmente em sua fase final, o caráter contestador da sociedade faz parte da constelação de características românticas. Trata-se de um reflexo das revoltas populares que marcaram a época.
O exemplo abaixo chocaria até nossa geração: uma mulher toma um homem nos braços e o próprio homem admite isto.
“Não fui eu que possuí essa mulher; e sim ela que me possuiu todo, e tanto, que não me
resta daquela noite mais do que uma longa sensação de imenso deleite, na qual me sentia afogar num mar de volúpia.”
José de Alencar

Ainda do mesmo autor:

    “Aurélia era órfã; e tinha em sua companhia uma velha parenta, viúva, D. Firmina Mascarenhas, que sempre a acompanhava na sociedade.
      Mas essa parenta não passava de mãe de encomenda, para condescender com os escrúpulos da sociedade brasileira, que naquele tempo não tinha admitido ainda certa emancipação feminina.”



 Casper David Friedrich - The Abbey in the Oakwood


Três Romantismos:



A divisão do Romantismo em três grandes momentos ocorre na Literatura Portuguesa tanto para prosa como poesia, diferentemente do Brasil onde tal divisão costuma ser aplicada somente para poesia, embora não se pode negar uma eficácia se também fosse estendida para a prosa brasileira, uma vez que podemos perceber a existência de três segmentos nos romances. 


Nacionalismo


Predileção por temas nacionalistas e, no caso do Brasil, indianismo. Gonçalves de Magalhães;
Gonçalves Dias, Almeida Garrett, Victor Hugo, Walter Scott etc



Ultra-Romantismo

 

Um grande exemplo desta geração para a outra é uma questão familiar. Alexandre Dumas escreveu romances de época e ficou consagrado pelos seus três mosqueteiros e pelo retrato da França antes da Revolução. Já seu filho, Alexandre Dumas Filho escreveu A Dama das Camélias, um romance com traços byronianos e sociais. 

No Brasil, o maior nome da geração mal-do-século foi Álvares de Azevedo, também merecem destaque Junqueira Freire, Laurindo Rabelo e Casimiro de Abreu, este último, inclusive, produziu uma poesia ultra-romântica mais leve, até mesmo um tanto infantil. Por mais que possa parecer contraditório, até o exagero tem seus níveis!

Em Portugal, Soares de Passos foi o grande poeta. Na prosa, as novelas passionais de Camilo Castelo Branco. Na Inglaterra, Lord Byron foi o grande nome que incentivou toda sua geração. Na França, o poeta Alfred de Musset e sua ex-noiva, George Sand, a versão feminina de Lord Byron. Era comum morrer cedo.


Condoreirismo/ Pré-Realismo     
    

Ao contrário do que se imagina, não é somente a poesia abolicionista de Castro Alves que representa a fase final do Romantismo, a poesia erótica do autor também é uma ruptura. Erotismo sempre existiu em todas as escolas literárias, mas a forma como foi tratada é o que diferencia. A mulher em Castro Alves às vezes é um “vulto gracioso”, mas predominantemente ela está perto do eu-lírico, não é a virgem pálida e distante. O autor também usa muitas descrições formando uma plasticidade como a usada no Parnasianismo, portanto, este romantismo contido pode ser visto também como uma manifestações do fim da escola literária.

A crítica social também cresceu. Basta ver “A Escrava Isaura”, de Bernardo Guimarãens, “Lucíola” e “Senhora”, de José de Alencar etc


O Teatro


    Em 1830, a peça Hernani, escrita pelo grande Victor Hugo, chocou por quebrar a clássica divisão teatral das três regras de unidades, misturar verso e prosa, surgir a tragicomédia, a profunda transição de tempo. Quanto ao terceiro gênero não posso tecer muitos comentários porque não li ainda um autor que estudasse este aspecto.


Romance romântico?
Como já foi dito, o termo romance originalmente referia-se às narrativas medievais, mas foi estendido para qualquer narrativa ficcional longa, portanto, romance não é algo próprio do Romantismo, há romances românticos, realistas, naturalistas, medievais etc


The End
A errônea crença de que só porque o romance é romântico “tubo acaba bem” deve ser eliminada juntamente com a idéia de que poesia romântica é apenas amor. Temos que compreender a importância da forma e sua relação com o conteúdo.
O romance romântico pode possuir tanto finais tristes como felizes. Acontece que a forma como o final ocorre é que a grande marca. Os finais são dramáticos, exagerados e egocêntricos. Basta ver “Lucíola” em que o protagonista Paulo guarda madeixas da finada Lúcia para ter lembranças. Em “Amor de Perdição”, temos um senhor final: todo mundo morre ao mesmo tempo. A mocinha no convento defronte ao mar, vendo seu amor sendo enforcado, morre de amor. Mariana, a outra moça que o ama, prefere atirar-se no mar (leia-se cometer suicídio) com o cadáver do condenado. “Iracema” cujo final é o nascimento do primeiro caboclo, isto é, um mestiço entre branco e índio. Por fim, vale lembrar que os finais são sempre idealizados como nos contos de fada, inclusive alguns como “A Pequena Sereia” possuem finais bem românticos (se é que me entendem). “Longa e Fatal Caçada Amorosa” (Louisa May Alcott) não só é totalmente um romance de aventura bem sonhoso e idealizado como tem um final de cumprimento de uma profecia.
No Realismo/ Naturalismo, os escritores mostram o fim da história, mas a vida das outras pessoas continua, não é algo focalizado no “eu”. Confira “O Primo Basílio” e o naturalista “Bom Crioulo”, este último apresenta um grande exemplo do eixo realista/ naturalista como as pessoas se afastando após o crime, afinal, elas precisavam trabalhar, estudar, cuidar da casa, o livro não iria terminar com o efebo morto sendo contemplado como se fosse um príncipe.

No próximo capítulo...
Alguns romances românticos eram publicados em folhetim, em capítulos semanalmente, era assim que o público torcia por algumas personagens e detestavam outras. Com certeza, isto influenciou na teledramaturgia. Vale lembrar que amigas de José de Alencar insistiram para que Aurélia e Fernando ficassem juntos, caso não tivessem ficado juntos, segundo alguns professores, “Senhora” teria sido o primeiro romance realista por colocar o dinheiro como maior que o amor.


Considerações Finais


Creio que para nós, escritores, estas são as principais características e referências. Não há como eu detalhar mais, as 10 páginas de texto estão já bem longas. Seja como for, indico a leitura de Alfredo Bosi, Antônio Candido, Samyra Youssef, Domício Proença Filho etc


Rommel Werneck


BIBLIOGRAFIA

AMARAL, E. et al. Novas Palavras. São Paulo: FTD, 2000

CEREJA, W. R. & MAGALGHÃES. T. C. Português: Linguagens. Volume Único. São Paulo: Atual, 2003

PROENÇA FILHO, Domício. Estilos de época na Literatura. 8ª ed. São Paulo: Ática, 1984

SKULL, Lady S.. Século XIX - Parte 1: Os Românticos. Em: http://modadesubculturas.blogspot.com Acesso em 30.01.2011

 e livros da época baixados gratuitamente na internet

6 comentários:

Hilton Valeriano disse...

Informativa, instrutivo. Em tempos de obscuridade em relação a tradição, é sempre bom ler artigos que buscam revisar equívocos e ilustrar novas perspectivas não deslumbradas.

Edir Pina de Barros disse...

Excelente iniciativa! Texto rico e bem elaborado. Amplia, e muito, os horizontes deste blog.A mim me foi útil. Creio que seja necessário para sustentar a proposta do blog, adensar as trocas e amadurecer a escrita. Amei, bjs Edir

Lord Rommel Werneck disse...

Infelizmente, não te como fugir de aspectos genéricos. É um texto muito longo, o assunto é muito amplo e as características é que talvez nos importem mais

Lord Rommel Werneck disse...

O próximo será sobre "POSSIBILIDADES DE RELEITURA DO ROMANTISMO" Creio que amanhã ou terça publicarei

Edir Pina de Barros disse...

Mas são as diretrizes básicas, uma orientação à leitura, um convite à leitura ou re-leitura da história da literatura mundial e nacional.

Lord Rommel Werneck disse...

Sim, as características são o mais importante para nós.