terça-feira, 3 de maio de 2011

BELLE ÉPOQUE! "Vai encontrar a presa — o gozo — em tua boca."






A MATILHA


         Pendente a língua rubra, os sentidos atentos,
         Inquieta, rastejando os vestígios sangrentos,
         A matilha feroz persegue enfurecida,      
Alucinadamente, a presa malferida.



         Um, afilando o olhar, sonda a escura folhagem;
         Outro consulta o vento; outro sorve a bafagem,
         O fresco, vivo odor, cálido, penetrante,
         Que, na rápida fuga, a vítima arquejante
         Vai deixando no ar, pérfido e traiçoeiro;
         Todos, num turbilhão fantástico, ligeiro,
         Ora, em vórtice, aqui se agrupam, rodam, giram,
         E, cheios de furor frenético, respiram,
         Ora, cegos de raiva, afastados, dispersos,
         Arrojam-se a correr.  Vão por trilhos diversos,
         Esbraseando o olhar, dilatando as narinas.
         Transpõem num momento os vales e as colinas,
         Sobem aos alcantis, descem pelas encostas,
         Recruzam-se febris em direções opostas,
         Té que da presa, enfim, nos músculos cansados
         Cravam com avidez os dentes afiados.
         Não de outro modo, assim meus sôfregos desejos,
         Em matilha voraz de alucinados beijos
         Percorrem-te o primor às langorosas linhas,
         As curvas juvenis, onde a volúpia aninhas,
         Frescas ondulações de formas florescentes
         Que o teu contorno imprime às roupas eloqüentes:
         O dorso aveludado, elétrico, felino,
         Que poreja um vapor aromático e fino;
         O cabelo revolto em anéis perfumados,
         Em fofos turbilhões, elásticos, pesados;
         As fibrilhas sutis dos lindos braços brancos,
         Feitos para apertar em nervosos arrancos;
         A exata correção das azuladas veias,
         Que palpitam, de fogo intumescidas, cheias,
         — Tudo a matilha audaz perlustra, corre, aspira,
         Sonda, esquadrinha, explora, e anelante respira,
         Até que, finalmente, embriagada, louca,
         Vai encontrar a presa — o gozo — em tua boca.


Teófilo Dias, 1882



Post-scriptum
CORRIGINDO....... Obrigado, Tambelíssimo

5 comentários:

Alexandre Tambelli disse...

Está correta a formatação. No 13º verso tá digitado disperses, digita dispersos e ajusta uma palavra no final do poema, é intumescidas e não entumescidas, Rommel! Existe um livro que se encontra com regularidade nos sebos da Coleção Poesia da Comissão de Literatura do Conselho Estadual de Cultura de São Paulo (1960) - Teófilo Dias - Poesias Escolhidas - é o 1º número dessa coleção, que tem dentre outros, o Barão de Paranapiacaba, Maciel Monteiro, José Bonifácio, o Moço, Francisca Júlia, etc. Abraços, Alexandre!

Febo Vitoriano disse...

Obrigado. Corrigi tudo e vou comprar o livro!

Jonathan F.L disse...

Você tem bom gosto em suas escolhas, além de que escreves muito bem.

Tenha um bom dia

Se interessar:
Where Pages Are Lost (Meninos lobos)

Febo Vitoriano disse...

Muito obrigado pela visita no PR


É um poema sim, mas aparenta mais ser letra de música, vc pode revisar seu poema melhorando algumas coisas.


Adorei o layout de seu blog.

Febo Vitoriano disse...

Sabe o que pensei? Em fazer uma releitura. Vou colocar "A MAtilha" na minha lista para fazer pastiche, é um poema lindo, bem escrito e plenamente atual.