domingo, 1 de maio de 2011

O SAPO***1
              
               À João Pires Germano.


Destes brejais é o rei, e talvez seja o sapo
Mais hediondo, mais desconforme, mais rotundo
E impando ao sol que o lambe ele incha a gorja e o papo,
Certo que outro não há que o iguale em todo mundo.


Muita vez perseguido e acaso à morte escapo,
Chapinhava poltrão dos tremedais no fundo
E já não era assim um rei tão grande e guapo
O vil batráquio a arfar de ódio no charco imundo.


Agora o espia, à coca, entre as toiças de cana,
De estranha cobra o olhar, cheio de astúcia e gana,
Que o empolga no seu fluido e o envolve, de repente.


E o sapo, voluptuoso e pávido, a alma em pranto,
Vai lento e lento ansiando ao túrgido quebranto
E desmaia a babar na guela da serpente.


(Resende, José Severiano de. O SAPO. In: Mistérios***2, Belo Horizonte, Editora CEM, 1971). (pág. 84).


***1 - O SAPO pertence a série de sonetos intitulados de PAINÉIS ZOOLÓGICOS, com versos dodecassílabos, dedicados a Jacques D´avray - poeta simbolista - (pseudônimo de José de Freitas Valle) - Senador por São Paulo e criador da Villa Kyrial, símbolo, da Belle Époque Paulistana - no início do Século XX).


***2 - A primeira edição de Mistérios data de 1920 e foi editada em Lisboa pelos Editores Livrarias Aillaud e Bertrand.

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