terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

INDRISAÇÃO #04 - Cruz e Sousa / Violante Montesino


Deixai que deste álbum na folha delicada
Eu venha difundir meus rudes pensamentos
Deixai que as pobres rimas, uns nadas poeirentos
Eu possa transudar da mente entrenublada!...

Deixai que de minh’alma na fibra espedaçada
Eu busque inda vibrar uns cantos tardos, lentos!...
Bem cedo os vendavais, aspérrimos, cruentos
Ai! Tudo arrojarão à campa amargurada!

Porém qu’importa isso! dos mares desta vida
Nos pávidos, estranhos, enormes escarcéus
Se alguma coisa val, és tu, ó luz querida!...

Rasguemos do porvir os áditos, os véus!...
Riamos sem cessar, embora em dor sentida!...
Também as nuvens negras conglobam-se nos céus!


Cruz e Sousa

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Doce ironia

Deixai que eu lembre de nariz erguido
Rindo-me loucamente ao sepulcral
Das flores secas no frio do quintal.

Mas deixai-me das dores expungido
Deixemos que sorria o vil passado
Nos traços incubados de outras eras,

Pois há contentamento encabulado

Saboreando a dor como as panteras.


Alex Oliveira


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AO AMADO AUSENTE

Se apartada do corpo a doce vida,
Domina em seu lugar a dura morte,
De que nasce tardar-me tanto a morte
Se ausente da alma estou, que me dá vida?

Não quero sem Silvano já ter vida,
Pois tudo sem Silvano é viva morte,
Já que se foi Silvano, venha a morte,
Perca-se por Silvano a minha vida.

Ah! Suspirado ausente, se esta morte
Não te obriga querer vir dar-me vida,
Como não ma vem dar a mesma morte?

Mas se na alma consiste a própria vida,
Bem sei que se me tarda tanto a morte,
Que é porque sinta a morte de tal vida.


Violante Montesino
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VIDA E MORTE

Seria a morte uma coisa descabida?
Será talvez simplesmente o fim da vida,
ou decerto um pesadelo, ou mesmo um corte?

Não seria alguma coisa desejada
Pois que a vida é a esperança tão sonhada
de venturas, que nos nega a dura morte!

Mas se sofres, já não almejas a vida

E enfim sonhas que te leve a Boa Morte!


Eliana Calixto

Forma fixa de Craig Tigerman


PLÊIADES

Plêiades refulgem no azul Infinito...

Pelos saraus, serestas e academias

Pulsam loucamente declamando

Poesia: um êxtase dos deuses

Prosa: flores que formam romance

Poetas, prosadores, as plêiades todas, enfim,

Procuram algo mais prazeroso do que a Poética.





* Septilha criada em 1999, por Craig Tigerman, é uma forma fixa com título obrigatório, constituído de apenas uma palavra seguido de sete versos iniciados pela mesma letra do título. Em contraponto a essa fixidez, versos livres.

O título não precisa ser "plêiade", eu assim pus por julgar interessante o duplo significado (plêiade também pode significar conjunto de escritores)

Aqui no Brasil, a primeira vez que se falou no assunto foi no Fórum do Recanto das Letras, hoje extinto. A definição foi extraída do grupo Poetas e Escritores do Amor e da Paz que cultiva tal forma fixa.


   
Rommel  Werneck

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Soneto releitura 1880's em 14 sílabas no ritmo de gaita galega: 4a, 7a, 10a e 14a






A DANÇA DE DIANA



E sobre a Terra, o veludo molhado, negro manto
Sem ser notada, Diana descansa intensamente
Ela, mulher, deusa, santa, satélite, serpente
Logo desperta suave do sono de acalanto


Desliza um pouco a mantilha e converte-se em crescente
Revela o colo, seus ombros apenas, entretanto
Despe-se toda a rainha das deusas e do encanto
Nua e belíssima: cheia de graça livremente!


E quem contempla a mulher no seu banho, em sua alcova
Logo perdido se vê. Mais um ciclo dela encerra
Ela se cobre, a minguante serpente se renova.


Numa neblina de nuvem, incenso gris na acerra
Sem ser notada,  Diana se torna fria e nova
E o manto negro, molhado veludo sobre a Terra


Rommel  Werneck

sábado, 25 de fevereiro de 2012

INDRISAÇÃO #02 - Lope de Vega


      
Un soneto me manda hacer Violante,
que en mi vida me he visto en tal aprieto;
catorce versos dicen que es soneto:
burla burlando van los tres delante.


Yo pensé que no hallara consonante
y estoy a la mitad de otro cuarteto;
mas si me veo en el primer terceto
no hay cosa en los cuartetos que me espante.


Por el primer terceto voy entrando
y parece que entré con pie derecho,
pues fin con este verso le voy dando.


Ya estoy en el segundo, y aun sospecho
que voy los trece versos acabando;
contad si son catorce, y está hecho.



(Lope de Vega. Espanha. Século XVII).


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Un indriso me manda hacer mi mano.
A ocho versos así llaman indriso,
y en un soplo los tres primeros gano.

Pensé: “la consonante no diviso”,
mas corren términos en –iso y -ano,
perdón… y dos tercetos ya improviso.


El postrer verso no está tan lejano.


Fue el penúltimo, y hecho está el indriso.



(Isidro Iturat).

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Gregoriano Anapéstico





VIKING


E nos braços, o doce veneno,
Este sangue, sublime hidromel,
Este fogo, gelado e cruel,
O teu vinho, solene e sereno


Uma força dos deuses, o Hell
Desenhando um celeste mais pleno,
Esplendor do pecado terreno,
A pureza de um véu carrossel.


Um dos braços a minha voz cala
E aquel’outro me lança a devassa
Voz, clamor suspiroso que fala:


Que esse Thor, o meu Deus da Desgraça
No fulgor infernal da Valhala
Meu desejo sutil satisfaça!


Rommel  Werneck

domingo, 12 de fevereiro de 2012

RIMA POBRE X RIMA MISERÁVEL







Muitos escritores atuais, fanáticos pela vanguarda, criticam a poesia revivalista por apresentar rimas pobres. Comenta-se que “a obsessão por escrever dentro da métrica (sic) e da rima provoca o uso de rimas pobres”. A afirmação não assusta pelo seu significado (apesar de equivocado, porque mesmo os versos livres possuem métrica), mas sim pela intenção. Tais pessoas, que sequer escrevem versos rimados, desconhecem que TODOS os versos possuem métrica e ainda se incomodam com “rimas pobres” nos poemas de outrem?

Sinto muito: rimas pobres tanto eu como outros poetas escreveremos. Parece que ainda não se sabe que rima pobre não é rima miserável, e que, enfim, existe diferença entre rima pobre e rima miserável!

 
Primeiramente, vamos estudar (é assim que os poetas autênticos sempre fizeram!) a classificação da rima quanto ao valor. Ao longo da História, sempre foi apresentado o conceito de rima quanto ao valor: pobre e rica, sendo pobres as rimas formadas pela mesma classe gramatical e ricas quando formadas por classes diferentes.

 
Norma Goldstein (em “Versos, Sons, Ritmos”), porém, divide em dois modos a conceituação: gramatical e fônico, o que se revela muito conveniente, pois há muito já se discutiu pela vida afora sobre rimas ricas imperfeitas (sem a mesma perfeição sonora).



Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite esc
ura,
Em tristes sombras morre a formos
ura,
Em contínuas tristezas a alegr
ia.”



O exemplo acima extraído do soneto “À instabilidade das cousas do mundo” de Gregório de Mattos e citado por Goldstein, é composto, pelos dois casos no que tange classe gramatical. Dia e alegria são substantivos, portanto, rimas pobres, ao passo que escura (adjetivo) e formosura (substantivo) são ricas.

 
O que estudamos até agora foi o tradicional critério sob a classe gramatical. Goldstein propõe a existência do critério fônico que consiste em rimas cujo som se iguala antes mesmo da vogal tônica. Para ficar mais claro, vejamos o exemplo abaixo (“Um beijo”, Bilac):



Foste o beijo melhor da minha vida,
Ou talvez o pior... Glória e tor
mento,
Contigo à luz subi do firma
mento,
Contigo fui pela infernal desc
ida!”




As rimas escritas em azul são pobres, a combinação ocorre a partir da vogal tônica (ida). Já as rimas grafadas em lilás começam a partir da consoante m, antes da vogal tônica (e) formando um efeito sonoro diferente do caso anterior.



A rima pode ser pobre, rica,  rara ou preciosa. Os dois últimos termos são menos freqüentes, mas, ainda assim, muito usados em livros e sites.



Por rara entende-se a rima formada por poucas palavras possíveis, isto é, a terminação de tais palavras é rara, o uso depende do grau de conhecimento das palavras por parte do escritor e da ocasião apropriada.



Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se t
isne,



Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro c
isne!”



As rimas destacadas do soneto mais famoso de Júlio Salusse são raríssimas. Glauco Mattoso aponta “mamãe” e “também” na pronúncia lusitana e “apanhe” e “champanhe” na pronúncia brasileira dependendo da região. Não constitui rima rica o uso de duas palavras de classes diferentes, porém homógrafas (mesmo som e mesma grafia), por exemplo, “gema” (substantivo) e “gema” (verbo gemer).



A última categoria é a denominada rima preciosa, obtida por meios artificais como o uso de pronome oblíquos. Assim define Ricardo Sérgio (Recanto das Letras): feitas, forjadas com palavras combinadas, tais como:

[múmia com resume-a];

[vence-a com sonolência];

[pântanos com quebranta-nos];

[águia com alague-a], etc.”



Exemplo apontado (“Monólogo de uma sombra”, Augusto dos Anjos):




Toma conta do corpo que apodrece...

E até os membros da família engulham,

Vendo as larvas malignas que se embrulham

No cadáver malsão, fazendo um s.”



Resumindo, pobre, rica, rara e preciosa constituem a tipologia da rima. Voltemos ao assunto principal da postagem: a diferença entre a satanizada rima pobre confundida com a rima miserável. A rima pobre é pobre, mas mesmo assim é considerada rima, caso contrário não desfilaria com aplausos com rimas ricas no clássico abaixo:



Aquela triste e leda madrugada,

Cheia toda de mágoa e de piedade,

Enquanto houver no mundo saudade,

Quero que seja sempre celebrada.



Ela só, quando amena e marchetada

Saía, dando ao mundo claridade,

Viu apartar-se dúa outra vontade,

Que nunca poderá ver-se apartada.



Ela só viu as lágrimas em fio,

Que de uns e de outros olhos derivadas

Se acrescentaram em grande e largo rio.



Ela ouviu as palavras magoadas

Que puderam tornar o fogo frio

E dar descanso às almas condenadas.”





(Luís Vaz de Camões)





E o que dizer ainda do soneto riquíssimo de Violante do Céu? A religiosa portuguesa usou um esquema rimático do qual não conheço terminologia para classificá-lo, as mesmas duas palavras!





Se apartada do corpo a doce vida,

Domina em seu lugar a dura morte,

De que nasce tardar-me tanto a morte

Se ausente da alma estou, que me dá vida?



Não quero sem Silvano já ter vida,

Pois tudo sem Silvano é viva morte,

Já que se foi Silvano, venha a morte,

Perca-se por Silvano a minha vida.



Ah! suspirado ausente, se esta morte

Não te obriga querer vir dar-me vida,

Como não ma vem dar a mesma morte?



Mas se na alma consiste a própria vida,

Bem sei que se me tarda tanto a morte,

Que é porque sinta a morte de tal vida.”




 
Resta então a dúvida: teriam sido Camões e Violante do Céu menos inteligentes por usarem rimas pobres? Pouco a pouco a conclusão que nosso raciocínio tece é de que a questão não está na rima ser ou não pobre e sim no uso. Como descobrir então isso? Os gigantes Olavo Bilac e Guimarães Passos explicam (Tratado de Versificação, de 1910, com ortografia anterior à reforma de 1911):





Nem todas as rimas têm o mesmo merito. As em ão, ar, aão, ava, issimo, etc, são vulgares. Mas não aconselhamos o abuso das rimas difficeis, que quasi sempre sacrificam a emoção.
As rimas, para ter grande valor, devem ser de índole grammatical differente. Deve-se procurar para a rima de um substantivo, um verbo; para a de um adverbio, um adjectivo, etc., etc., de modo a evitar a pobreza e a monotonia.
Os verbos, os substantivos e os adjectivos bem combinados são os vocábulos que dão as rimas mais dignas de um bom poeta.
A rima deve ser rara para não ser corriqueira, mas não tão rebuscada que possa parecer ridicula”








Dotado de bom senso, o escritor saberá o que usar e onde usar. Um texto pode ser belo mesmo abrigando somente rimas pobres se assim foi propositalmente escrito ou se não prejudica sua estética. É evidente que, como escritores, buscaremos sempre a perfeição da arte e, assim, intercalar pobres e ricas torna-se uma possibilidade, porém sem fanatismos.



Mister se faz também perceber que muitas vezes a rima pobre vira rica no contexto do poema. Nos versos abaixo (“Nós, os pobres mortais”, Rommel Werneck), utilizei a mesma palavra/ rima duas vezes:





Oh! No mar que nascestes um dia

Nessas vossas espumas fatais

Em que sois nossa grande poesia!



Já que vós nos Elíseos reinais

Vinde cá visitar algum dia

Vossos servos, os pobres mortais!”





Terá sido por falta de opções? Não, mas por estratégia poética - na primeira vez em que aparece, “dia” refere-se ao nascimento de Vênus; na segunda, é o desejo pela visita dela aos “pobres mortais”. O texto é a combinação entre o plano sonoro (rimas, metros, recursos etc) e o plano semântico (figuras de linguagem, mensagem que o texto quer passar, chave de ouro etc). Daí, rimas pobres e repetições constituem um valioso instrumento de combinação de tais planos.





DESCENDO


Hendecassílabo à Nilza Azzi (5ª, 7ª e 11ª)



Pelos degraus vou seguindo escorregando...

Quem sabe eu me torne um grande pé de valsa...

Decadentemente, apenas deslizando

Por antigas águas duma vida falsa!



Os elevadores caem em tom brando

Descendo as fatais cascatas numa balsa

Estilosamente, apenas inclinando...

Eu já disse, sou recente pé de valsa!



A balsa prossegue pelas velhas águas...

E como não posso nunca com as mágoas

Continuo pelo mar do retrocesso



E por desejar talvez um bom progresso

Eu vou rastejando até sobreviver

Descendo até onde não dá pra descer!





Os versos acima escritos por mim estão estruturados majoritariamente em rimas pobres. Tendo em vista que meu objetivo foi escrever sobre a decadência humana (“descendo até onde não dá pra descer!”), julguei coerente o uso de rimas pobres e uma linguagem mais direta (porém com artifícios literários básicos). Se o poema é “de fossa” e celebra a decadência humana, por que não “apodrecer”, isto é, externalizar a banalidade que o texto fala? Tudo consiste em buscar a harmonia entre o plano semântico (conteúdo) e o plano fônico (som).








 

Além da lição de Bilac e Passos (ibidem), há diversos outros casos: em uma conversa, a escritora Eliane Arruda citou um soneto satírico de Bocage, e o escritor Ivan Eugênio da Cunha citou Camões. São belos versos e que também apresentam rimas pobres numa quantidade significativa. Repetindo: seriam os dois ilustres poetas lusos inferiores por terem feito isso? E os poetas atuais que nos acusam de “plágio”, “cópia”, “poesias batidas e óbvias”, “rimas pobres”, “obsessão por métrica” etc? Serão eles melhores por não escreverem como nós? Se o que faz um escritor bom não é a “métrica”, com certeza não será o uso de versos livres e brancos que definirá algo. Alguém ainda tem dúvidas sobre a autenticidade dos versos brancos, por exemplo?...



Não devem os escritores de outros estilos e temas condenarem quem se dedica ao revivalismo literário, muito menos usando do critério de que “rima pobre estraga um poema”. O que queremos? Literatura ou Hipocrisia?




ROMMEL WERNECK







BIBLIOGRAFIA


BILAC, Olavo e PASSOS, Guimarães. Tratado de Versificação. http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/00292800#page/1/mode/1up
Acesso em 11. fev. 2012


CAMÕES, Luís Vaz de. Aquela leda e triste madrugada. http://pt.wikisource.org/wiki/Aquela_triste_e_leda_madrugada Acesso em 11.fev.2012


CÉU, Soror Violante do. Se apartada do corpo a doce vida,. http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/violante.htm  Acesso em 11.fev.2012


GOLDSTEIN, Norma. Versos, Sons, Ritmos. São Paulo: Ática, 1986. 3ª ed.


SÉRGIO, Ricardo. Rimas pobres, ricas e raras. Estudos Literários. http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/93650  Publicado em 03. jan. 2006.


WERNECK, Rommel. Nós, os pobres mortais e Descendo. www.poesiaretro.blogspot.com  Acesso em 11. fev. 2012