quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Lúgubre Saudade




Lúgubre Saudade

Ai de mim, teus lábios são frios!
Mudos, também.
Teu amor, onde
Se esconde?
Roubou-mo quem?
GOETHE, Fausto

Pranteio ao sentir saudade
Da tão pura mocidade,
De quando estavas comigo,
E andávamos p'lo fúnereo
E venusto cemitério
Que agora tens como abrigo...

Vivíamos só de amor,
Nada era escuro ou sem cor,
As flores tinham perfume,
Na Natura havia encanto,
Era em vão o ardente pranto...
Até sombrear-se o lume!...

Dantes de partir, disseste,
Com voz mui doce e celeste:
"Amor, não é triste a morte,
Não chores minha partida,
Chora a vida não vivida,
Esta é a mais triste sorte."

Tentei crer em tais palavras
Que suavemente falavas,
Mas cobriu-me a palidez
Assaz lânguida e sombria
Da eternal melancolia
E a alegria se desfez.

Oh! Quando enfim te esvaíste,
Não houve noite mais triste!
Tornei-me errante e sozinho...
Tal fel me exauriu! Só eu sei
Quantas lágrimas chorei,
Afogado em spleen e vinho...

Ah, a vida já é tão curta
E a dor tempo inda me furta...
Porém, isto não importa!
Que eu beba o último hausto
E logo, pereça infausto,
Pois minh'alma já está morta!...

Renan Tempest

2 comentários:

Herculano Novaes de Aragão disse...

Muito bom!

Colombina disse...

Sim, a historinha é boa! A pesar de ser clichê na poesia retrô... nada contra, esse é o clima, essas são as rimas. Mas essa Lúgubre Saudade vem com uma historinha bem clara e bela. Gosto de claridade.