segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Hendecassílabo 3a, 5a e 11a





 

Imagem inédita da superfície do Sol feita pelo
Solar Dynamics Observatory em abril de 2010.



STELLA MATUTINA


As estrelas são figuras do passado
Que adormecem pálidas pela manhã
E despertam lúgubres de cintilado
Predizendo em plenas trevas o amanhã.

E trajando um manto de nuvens eternas
Elas, santas, sacras, sábias da verdade,
Adornadas sempre por jóias supernas
Resplandecem mesmo na vil tempestade.

Mas ressurge estrela que as outras ofusca
Derrotando a chuva, derrotando a vida...
Nela cada estrela a luz suprema busca

Cada ser procura consolo, esperança...
E a beleza dela é tão grande e perdida
Que a mim seu sublime raio nunca alcança.

 
ROMMEL WERNECK

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Soneto Marginal Retrô

Soneto marginal retrô






GAROTO DE ALUGUEL



E esta boca com gosto de cigarro?
E este batom com cheiro de motel?
Tudo isto que parece ser bizarro
É na verdade o mais florido céu!


E estas costas repletas de água e barro?
E este peito tão áspero e cruel?
Eu vomito aguardente de catarro
Com meu simples garoto de aluguel...



E este coração tão seco e tão duro?
Que nem mesmo respira, pulsa ou bate
Que mais parece caixa de amianto?!


E este puto com cara de anjo e santo
Que na esquina, na vida, no combate
Enfrenta novamente seu futuro?


Rommel  Werneck 


NOTAS:


2- Soneto em decassílabos heroicos sob inspiração baudeleriana. Um soneto marginal, porém na poesia de sempre, isto é estudar possibilidades...


Efebo de clâmide



A UM EFEBO


Já não és mais imberbe, velho efebo!
Cresceram enfim teus pêlos, teus músculos
E, afogado nos teus alvos crepúsculos,
Contemplo tuas novas formas, Febo!


Muda teu rosto, olhar em que percebo
Que me rejeitas; ó teus vis escrúpulos,
Adolescente, afundam-me em minúsculos
Locais, pois eu virei pobre mancebo.


Fez-te mais belo ainda a Mãe Beleza
E a mim a infância deu com forte horror!
Não te iludas jamais co’a tal nobreza


Pois a beleza não mostrará cor,
Na marcha do mau tempo só vileza:
Sombras e luzes sobre ruga e dor.


Rommel Werneck

Soneto releitura 1880's em 14 sílabas no ritmo de gaita galega: 4a, 7a, 10a e 14a






A DANÇA DE DIANA



E sobre a Terra, o veludo molhado, negro manto
Sem ser notada, Diana descansa intensamente
Ela, mulher, deusa, santa, satélite, serpente
Logo desperta suave do sono de acalanto


Desliza um pouco a mantilha e converte-se em crescente
Revela o colo, seus ombros apenas, entretanto
Despe-se toda a rainha das deusas e do encanto
Nua e belíssima: cheia de graça livremente!


E quem contempla a mulher no seu banho, em sua alcova
Logo perdido se vê. Mais um ciclo dela encerra
Ela se cobre, a minguante serpente se renova.


Numa neblina de nuvem, incenso gris na acerra
Sem ser notada,  Diana se torna fria e nova
E o manto negro, molhado veludo sobre a Terra


Rommel  Werneck

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Em gregoriano anapéstico

Em 

Fonte da imagem


A PAPAI


Papai, leva-me aos parques da infância,
Aos saudosos jardins da inocência,
A essas árvores cuja distância
Apagou o perfume da essência...

Eu preciso nadar na fragrância
Das passadas lagoas da Crença
Da criança assistida em constância
Aspirando às lições da decência...

A Grande Árvore gris da Ciência
Me mostrou a maçã da ganância
E queimou os rosais da prudência...

Papai, desce e me abraça em clemência
E seguindo os teus passos em ânsia,
Subiremos os dois à Inocência.


          Rommel Werneck

sábado, 18 de outubro de 2014

O PERFUME DO PASSADO






        Eu estava simploriamente de vestido branco que era amplamente decotado, porém o decote estava fechado com amarras bem resistentes e pendia nos meus braços e nas costas um xale bem simples para uma noite de frio como aquela. Uma mochila significativamente pesada e uma sacola contendo cartazes que eu utilizaria no dia seguinte compunham minha expedição. As aulas na faculdade tinham acabado, eram aproximadamente dez horas e meia da noite e eu estava num ônibus com poucos passageiros, um navio de tão pouquíssimos tripulantes que pude me sentir a Rainha dos Mares. Sim, uma rainha eu queria ser para dominar a civilização, mas eu precisaria de um companheiro, um augusto imperador que virilmente me coroasse.

      Virei meu olhar para a direita e lá jazia um belíssimo cavalheiro esguio de preto trajando um longo sobretudo, camisa e calça sociais simples. Tinha uma pele de chocolate meio amargo, não era mouro, mas também não era caucasiano. Estava sentado ao meu lado, ereto no banco, folheando um caderno e sorrindo contemplativo ao lado da janela.

      Oh! Nunca antes eu tivera contato com um semideus. Sim! Era um Hórus dourado e sedutor, mas que um dia morreria como outro mortal qualquer. Qualquer?! Não, ele não era um humano simples, era um semideus, um Hércules majestoso, mas oh! Que blasfêmia a minha! Ele era Hórus, filho de Ísis e deus por excelência, era um dogma no qual eu quis acreditar. E que fragrância! Não haveria no mundo incenso como o perfume dele. Desde que eu reparara no duque eu senti o seu aroma incessante e perfeito. Era uma beleza que me incensava loucamente no alto precipício.       

        O caderno do meu rapaz trazia anotações de contas, despesas, referências industriais e comerciais enquanto o meu lá na mochila possuía análise sintática, análise literária, relações de variedades lingüísticas, termos em outros idiomas etc. Oh! Meu mancebo se vestia como um poeta gótico e ébrio, mas era um homem de negócios. Oh! Daniel era um homem das finanças, um senhor poderoso que nunca olharia para a humilde serva, mas que contabilizaria a escrava. Daniel não só folheava o material, mas também abria a mão sobre as folhas não deixando nenhuma parte sem seu membro vigoroso.

         Ó Daniel, pára! Oh! Não, não! Sim! Ele deslocou a mão direita do caderno para minhas costas e foi me massageando suavemente sendo que em alguns momentos batia em mim, porém ele se manteve frio sorrindo para o caderno. Oh! Maldito demônio! Como poderia fazer aquela boa ação de anjo sem me olhar na cara. Será que ao contrário dos outros homens ele não gostava de ver as moças excitadas e descompostas? Meus cabelos estavam antes semipresos, mas agora estavam soltos e eu zonza. Aí, ele rasgou o corpo do meu vestido e se pôs a lambuzar nos meus seios enquanto suas mãos massageavam-me as costas. E ria escandalosamente como nenhum homem outro faria e a massagem era simples e fraca. Disse-lhe:
-----Ora, seu viado! Tu não sabes que és homem e deves me arrombar decentemente?!

      Como Daniel estava caído em meus seios e eu inclinada, numa curva caímos no piso do ônibus dando gritos e todos os passageiros observavam a reação dele à minha bronca. Ele arrancou o cinto e lançava-o em minhas costas nuas e levantou a saia para agir de modo mais adequado, mas eu fugi para nossas poltronas onde ele quis me satisfazer, mas...

       Despertei menstruada do meu sonho rubro e reparei que Daniel não estava mais a meu lado. Desesperada estava, mas quis ser discreta, olhei para trás e vi meu rapaz de pé pronto para descer do ônibus. Infelizmente, não pude me despedir dele, não houve tempo, ele andava rápido. Como os homens são horríveis? Tão lentamente nos seduzem e nos desvirginam e tão rapidamente partem! O pior é que eu percebi que o perfume sumira com Daniel e no lugar da eterna fragrância, havia um cheiro horrendo e assustador, o pior aroma que sentira em vida. Oh! O que me consolava é que eu desci rápido daquele transporte mesmo frustrada com meu sangue derramado naquele transporte impuro.

       Andei pelas ruas escuras e me assustei novamente: reparei no meu vestido rasgado no peito e se estava rasgado era porque alguém rasgara e se Daniel me estuprara era porque não era sonho. O homem das finanças tinha mesmo tomado como amante a estudante de Letras. Que superno! A chuva caiu e antes de umedecer minhas cartolinas joguei meu xale sobre elas e sentei na mesa de um bar de esquina, um lugar com poucas pessoas e com música de rádio. Lá encontrei Iraci e Rita, sua mãe. Iraci e eu estudávamos juntas no tempo do colegial e há tempos eu não a via.

---- Nossa, menina, que saudade, me dá um abraço!---- disse-me minha amiga que estava vestida de saia longa e de blusa de lã----- Desde março não te vejo, há tempos!
---- No frio andando desse jeito? E ainda mais com o vestido rasgado? Vou pegar uma blusa pra você, menina! Ai neste frio, hein...---- era a fala de Rita preocupada comigo e saindo para me aconchegar melhor e avisar minha mãe que eu chegaria tarde por causa da chuva e porque eu não queria molhar os cartazes
----- Pra que os cartazes?---- perguntou Iraci
----- Pra trabalhos com meus alunos amanhã.

      Conversei com minha amiga e contei as novidades. Iraci tinha me falado que eu estava muito distraída e estranha. Corria o mês de junho e desde dezembro aquele bar lhes pertencia, fato que embora Iraci me contara na época do Natal eu não sabia, prova de como eu estava distraída, mesmo tendo reencontrado minha amiga em março num aniversário.

       Rita me trouxe um longo casaco de frio e agradeci especialmente. As duas me deixaram sozinha comendo e bebendo enquanto a chuva só piorava. De repente, senti novamente o perfume resplandecente de meu namorado do ônibus. O perfume de Daniel não era exalado de dentro do bar e sim de fora, era daquela rua vagabunda e soturna de lúgubres lobos que saía o almíscar sagrado de meu deus. Meus pertences estavam bem guardados com Rita, eu decidi seguir pela rua afora por meu cavalheiro solitário e perfumado, entretanto não achei certo seguir com o casaco de Rita, molhar algo que não era meu enquanto meus pertences estavam bem guardados e quentinhos. Deixei o casaco perto do caixa, aliás, era apenas de xale e com meu vestido rasgado que eu deveria encontrar meu amado. Fui pela tenebrosa tempestade seguindo a fragrância e quanto mais forte ficava o cheiro, mais eu corria mesmo cansada, menstruada e excitada.

      Eu não observava com medo as ruas sombrias, vazias e silenciosas, afinal era lá que eu habitaria para sempre, pois a droga tinha me tornado extasiada demais para que eu residisse num lugar quente e fofo. Eu queria sentir aquele aroma obscuro e apanhar de meu senhor. Conforme eu caminhava um círculo de névoa púrpura de perfume se formava. Cada vez mais o cheiro tornava-se mais forte e embriagador e embora eu conhecesse o bairro como a palma de minha mão, estava perdida e nem sabia como voltar. Além da neblina fragrante muito grossa e forte, eu via a figura de Daniel me circulando levemente. Ele me rodava para me deixar tonta e cada vez se aproximava mais até que desaparecia e voltava novamente. Houve um momento que vagamente me lembro em que ele deu uma forte gargalhada e daí em diante só me lembro de um manto púrpuro e etéreo me cobrindo.

      Oh! Que horrível foi quando eu acordei, quis vomitar meu coração numa latrina imunda, talvez menos escura e suja que meu corpo intoxicado. Eu dormira na casa de Rita que era ao lado do bar e acordei espirrando com febre e vomitando às sete horas da manhã. Enquanto eu jorrava em sangue, quatro pessoas conversavam no bar: minha mãe, o médico, Iraci e Rita.

----- Nem sei como agradecer por tudo que você fez, Rita e ao senhor também, doutor Rafael... Muito obrigada!
----- Oras! E se sua filha fosse minha filha? Nossa obrigação é cuidar das amigas!
----- Eu posso levar minha filha pra casa, doutor? Sei que aqui é ótimo, mas a casa dela é a casa dela...
     Antes que minha mãe me levasse de carro, Iraci veio até mim:
---- O que houve? Por que está assim?
---- Aquele perfume pecaminoso me intoxicou, acho que foi isto! Foi isto!
---- Que perfume? Não tem perfume, de que você ‘tá falando?
---- Iraci, eu reencontrei Daniel...

       Minha amiga exclamou assustada, mas eu já estava de pé indo para o carro que me levaria para casa.  Deixei Iraci pensando no meu problema, ela temendo minha perdição e eu compreendo que já estava de novo perdida. O tempo ainda estava úmido e frio, mas sem chuva. Ao longo do caminho, reparei pelo vidro do carro que tudo estava corrompido pela fragrância sublime e horrenda. As construções das ruas estavam cobertas pela grande névoa e minha alma clamava agonizante, gritei e bati no vidro querendo quebrá-lo para consumir a droga que eu tanto me fez dependente. O médico me segurou e impediu desgraça maior. Entretanto, no caminho entre a condução e o lar uma corrente de incenso penetrou em minhas narinas piorando meu estado de saúde. 

       Chegamos, enfim. O médico receitou remédios, uma alimentação saudável, uma série de exames e uma consulta com um psiquiatra. Em casa, tomei banho, troquei de vestido e permaneci deitada me alimentando. Minha mãe estava muito preocupada com meu estado de saúde, eu já me encontrava gripada e tísica. Era a gripe espanhola que meu rubro toureador me passara, era o mal-do-século aquele cheiro doce de veneno.

       Dois dias se passaram e pude notar pela noite que eu estava bem melhor. Minha mãe saíra para pegar açúcar emprestado na casa da vizinha enquanto eu andava pela casa, símbolo de meu progresso. Eu já vomitava pouco sangue, respirava melhor e conseguia ingerir alimento. É verdade que os dois dias foram os piores de minha vida, eu sentira fortíssimo desejo de cheirar a droga, mas ela não conseguia então eu tinha destruído móveis de meu quarto, queimado meus livros e cheirado diversos desinfetantes mesmo com minha mãe, Rita, Iraci e doutor Rafael tentando me impedir e decidindo me internarem. Mas, o pior passara. Agora, eu ainda estava doente, porém em um estado menos delicado e que me permitia sonhar novamente. E sonhei...

        Ao me aproximar da porta de entrada de minha casa, uma longa e magra porta de vidro, eu vi uma coluna estranha do lado de fora. O vidro distorcia as imagens e não pude ver direito o que era, ocorre que a coluna ganhava formas menos retas e simples, pude logo contemplar meu amante. Daniel estava lá triunfantemente sério e parado. Eu toquei no vidro com o desejo de me entregar novamente. Julguei estranho reencontrar meu anjo e não a poluição. A placidez reinava naquele instante absoluto até que algo que saía das mãos dele atravessou rapidamente a porta de vidro e tomando um susto eu me inclinei na parede segurando na cortina da janela ao lado. Meu pálido virgem lançara um estranho objeto, uma pedra que destruiu meu telhado de vidro. Havia um bilhete junto à pedra, mas a força de meu Hórus era tão grande e nobre que o papel jazia num outro canto distante da rocha. Eu li a mensagem e conforme lia, ouvia bem alto a voz suave de meu anjo caído declamando as duas palavras:
---- Good night!

       Virei e observei a pedra lançada quebrada em mil pedaços de vidro. Ela se dividira em fragmentos quando atravessava o meu telhado de vidro. Era um conjunto de pedaços do vidro de minha porta e do artefato dele. Mas, espera! Não era uma rocha! Era um recipente fragmentado, num fragmento maior, uma imagem de meu Hórus dourado e impuro. E havia uma tampa e, era um pedaço retangular, e um pacote simples e, mais pedaços lá e, algo vindo daquele velho frasco...
---- Não!



Rommel Werneck

REPRODUÇÃO ASSEXUADA

 


    Estávamos dentro de um onipotente edifício revestido de branco e de espelhos. Apresentava vários tons do branco lutuoso, desde o tom mais puro e pálido até o mais escuro próximo do chumbo. O prédio tinha placas de metais, eram paredes todas espelhadas. Creio que do lado de fora também deveria seguir a regra de espelhos e tons de branco além de ser talvez o maior da rua porque olhava para seu teto e não havia fim, havia nevasca caindo sobre mim e uma neblina cobrindo o topo cinzento. Dentro onde estava era um grande salão, um hall, uma recepção contendo uma  bela fonte ao centro. Eu estava numa sacada defronte à entrada principal e ao monumento de águas.

   Lucerna vestia um longo vestido branco de organza e rendas cujo corpo era bem justo e coberto de babados e volumes assim como a saia. Ela estava parada de costas para mim, num espaço entre a fonte e a porta principal. Da sacada eu gritava por seu nome em vão e apenas o eco tinha piedade de mim. De repente, ela se virou, veio rumo à fonte e me acenou. Eu, extremamente ansioso, planejei ir até ela que já se banhava nas águas se despindo, exibindo, clamando por mim, fazendo gestos.  Quando me preparei para pular do alto da sacada para cair na fonte, que, aliás, estava maior que antes, vi um rapaz vindo em minha direção me procurando. Mas oh! Que terror! Ele não fazia sinais para mim, apenas respondia pela bela jovem que lhe clamava na fonte, ou seja, minha tenra donzela Lucerna. Ele saltou rapidamente e ali na fonte os dois se extasiaram de lava luxuriosa.

    Entretanto, minha virgem pálida fugiu seminua dele correndo para fora da fonte e para diversos lados rindo sempre. Ele gritava dizendo que a domaria, mas em vão, até que ela esteve próxima de mim e soltou os panos ficando completamente nua e lúbrica. Era Vênus resplandecente nascendo para mim. O meu membro viril deleitava-se com aquela imagem divina de beleza. A minha deusa dançava para mim jogando os cabelos e ria belamente, porém sempre se afastando de mim. Eu me embriagava na fornicação distante, em movimentos viris profanadores e prazerosos. Quando atingi o ponto máximo de êxtase e fulgor, ela riu exageradamente e num rodopio caiu da sacada desaparecendo. Após ter saciado meu desejo, mesmo que de modo incompleto por não tê-la tocado, limpei-me nas águas da fonte porque eu estava maculado do sangue gerador da raça humana que exalei por minha namorada.

    As quedas d’água da fonte confundiram-se com minhas lágrimas. Eu passei a observar o nojo da situação que eu tinha vivido: minha namorada me ignorara e seduzira tanto a mim e a outro rapaz fazendo-nos sofrer e chorar enquanto a deusa apenas ria e vagava. Era uma dominadora ao nos seduzir, uma terrível deusa exigindo de nós oferendas, cultos, templos e preces. As preces eram as piores, pois ao prestarmos reverência, ficávamos sempre abaixo dela. E se Lucerna nos dominava na religião do amor, ela também deveria nos dominar no leito conjugal, lá a dama de branco, minha namorada virgem, tornar-se-ia uma verdadeira cigana cortesã, a mais bela Margarida Gautier da face da terra, a minha lasciva Madame Bovary e minha pura e quente Lucíola.

    Resolvi vagar pelo prédio, subir andares, enfim, circular para que pelo menos o belíssimo piso branco do hall não fosse o único espaço manchado por minhas lágrimas. Gemi de dor pelos corredores e salas por ter amado, adorado, aclamado, admirado, masturbado aquela leviana Lucerna. Ó Lucerna injusta! Ó perdição imortal, eu já estava morto pelo sangue do pecado e tudo por causa da terrível deusa. Eu precisava me recompor, apenas lavar minhas partes na fonte não adiantava, eu precisava que Lucerna voltasse e me julgasse belo, que me prestasse reverência, culto e que eu fosse deus. Chamei minha namorada, mas como ocorrera antes, eu estava perdido e o eco sombrio somente respondia. Eu deixei as lágrimas formarem rios por onde eu passava, subi os elevadores correndo rumo ao ponto mais alto para lá arquitetar uma vingança, mas o edifício não tinha fim e acabei descendo num andar qualquer após muitas horas de espera. Lá eu vasculhei tudo, procurei nas várias salas por minha deusa e por meu rival. Agora eu pretendia torná-lo um aliado, um amigo para me vingar dela. Nós a mataríamos juntos, nós a cozinharíamos juntos. Ele me ajudaria a rasgar o peito dela com meu punhal, ele também era vítima, era um cruzado enganado pelo demônio, merecia o direito de se vingar, ele seria meu escudeiro, meu vizir, meu melhor amigo, meu amante, meu esposo!

   Oh! Todavia nada encontrava e resolvi sentar numa cadeira. Lá adormeci um pouco e ao despertar deparei que minha calça ainda estava suja da seiva geradora. Como eu teria me sujeitado a tal condição durante o sono? Será que eu teria novamente idealizado minha Lucerna ou aquilo ainda era resto de meu êxtase daquela última vez em que apreciei minha Vênus? O que importava era que era preciso eliminar o mal pela raiz para que as flores venenosas não florescessem. A minha mão direita era terrível, havia a necessidade de destruí-la, afinal era menos doloroso abolir minha mão do que continuar com ela e praticar crimes sexuais. Eu não agüentava mais minha excitação ao pensar em Lucerna e ver seu fantasma na minha mente e meu punhal cortou o mal para que o fim do bem sobrevivesse pelo menos. Foi algo muito doloroso que nunca saberei descrever, eu me desfiz do barro que Javé me concedeu no Gênesis e pequei novamente. Mas era um pecado para evitar algo pior, um pecado pelo pecado, um pecado para não haver outro de circunstância mais elevada.

    Eu cortei minha mão direita, enrolei aquele pedaço de carne no meu cravat que deixei num canto da sala. Pus-me a vagar pelo prédio novamente buscando alguém para fazer um curativo, pois eu já compreendera que Lucerna estava morta ou desaparecida para sempre tal como o rapaz. Eu continuei vagando durante muito tempo. Lembro-me de ter descido e subido muitos andares a ponto de atingir parte da neblina do topo.

     De repente, escutei um barulho sincronizado e delicado que aumentava cada vez mais. Olhei para trás e vi uma forma reta rubra me seguindo, mas que terminava numa figura circular no chão. Observei mais atentamente e com uma visão mais fria e com menos medo e deduzi: era um braço ensanguentado me seguindo, o meu braço! Meu braço direito estava intacto, era apenas a mão que eu destruíra para sempre, mas oh! Que imagem de morte e vida! Minha mão gerara um braço, crescera como um ser vivo. Ao cortar meu braço, eu gerara uma vida, um ser.

    Era possível? Como? Eu estudara no colégio dos jesuítas que certos animais eram assexuados, bastava eliminar uma parte do corpo e ocorreria a reprodução, mas seria eu uma estrela do mar? Eu poderia gerar uma vida a partir de um braço? Mas como se antes eu tinha feito práticas indevidas e lançado ao piso branco do suntuoso prédio meu leite produtor de homens? E o braço lançado da estrela do mar se regenera, fato que a mim não acontecera. Mas espera! Oh! Minha mão voltara misteriosamente, ela se regenerara tal como numa estrela do mar ocorre. Mas como isto me ocorreu? Eu sempre senti desejo por outros seres, sempre amei as mulheres, senti até mesmo desejo por Lucerna, minha deusa miserável! Eu tivera amigos queridos, rapazes e garotas que não amavam nem pessoas do mesmo sexo ou do oposto, porém tais pessoas assexuadas jamais gerariam outros seres apenas por uma queda de cabelos, por exemplo. Mas eu criara um ser a partir de minha própria mão excluída.

    Como poderia surgir de mim um ser que fosse minha imagem e semelhança? Este pobre ser nascera de mim, como eu cuidaria dele e o amaria? Será que eu lhe seria um bom pai? Ele nascera, crescera e obviamente morreria. Eu precisava destruir o meu filho. Enquanto eu fazia todas as indagações, o meu filho andava pacífico e suavemente pela sala por vários lados, mas crescia tanto que já surgira um ombro! Precisava fazer o aborto que não fizera. Precisava matar meu filho e assim o fiz: meu punhal cortou o ser em três pedaços, a parte do ombro ficou solta assim como o braço também ficou independente da mão mãe. Lúcifer revoltou-se contra mim furiosamente e as três partes correram em minha direção, eram três seres horrendos agora! Oh! Que terror! Os três puxavam meu sobretudo e não tardou para meu filho braço desse socos no meu rosto para que eu caísse e os três rasgassem minha camisa de rendas e babados mordendo meu tórax desfazendo meus músculos e meu sangue azul. Reagi dando um circulo assassino com meu punhal afastando os três seres de mim, mas criando mais membros de família.

     O elevador veio me atender e desci mesmo com as crianças grudadas no vidro. Logo, elas caíram assim como Lucerna, o que deixou mais temeroso pelo elevador descer. Enfim, desci ao hall, voltei ao meu lugar de origem, passei nas proximidades da fonte e fui para a entrada principal que de repente ficou bloqueada pelos monstros. Eles eram sete. Eram sete filhos que eu tinha. Era a inveja daquele rapaz que se encontrava morto ou fora daquele prédio, livre de meus demônios. Era soberba, grande vaidade, por me julgar um nobre vitoriano, um duque de sangue azul mesmo eu sendo um grave pecador. Era preguiça de ter rezado e de não ter uma vida menos obscura. Era gula por refeições extravagantes e avareza para com os mais famintos. Era luxúria e ira que eu sentia por Lucerna. Ela era mãe de meus filhos, porque eles nasceram indiretamente dela.

    Oh! Os nossos filhos me perseguiam e eu corria pela sala com o punhal na mão para me defender, quando estive a caminho de retornar para a sacada, avistei um filho meu de corpo quase completo. Era um ser de longo vestido de rendas e babados em tom escarlate tal como a pele, apenas a cabeça ainda não estava lá. Olhei para as laterais e pude ver a imagem do ser rubro refletido nos espelhos e vindo em minha direção. Pude ver também os outros seres quase já bem crescidos quase iguais, eu pensei que assassinando a mão de cada um seria lógico que todos morressem, mas foi inútil, surgiram novos filhos e todos cresceram tornando-se iguais à virgem escarlate. As cabeças foram se formando e puder ver pelos espelhos e ao vivo as mil imagens de Lucerna numa versão satânica e sem nenhuma áurea pureza.





     Minhas filhas tinham semblantes sedutores agora, eram muitas, eram setenta vezes setenta Lucernas que me cercaram na fonte. Ali, onde eu me limpara, brotava sangue numa força de tempestade. O sangue saía da fonte como num vazamento e não com naturalidade e harmonia de uma fonte normal como antes. Era sangue caindo nos espelhos, sangue no chão e no meu corpo, sangue sustentando as Lucernas. O hall do prédio todo estava decorado de diversos tons de vermelho, desde o mais róseo até o mais forte escarlate. O sangue inundava-me e eu me afoguei, tentei usar o punhal, mas foi impossível. As mulheres me jogaram na fonte, ali arrancaram minha calça e rasgaram de vez minha camisa e sugaram meu sangue, meus músculos no tórax, na boca, no pescoço, nos genitais e em todas as outras partes do corpo, porque eram muitas mulheres. Elas não estavam apenas terminando o trabalho que começaram quando nasceram, elas agora me maculavam e saciavam meus desejos. Meu sangue azul, prova de minha virgindade, escorria pela fonte e chorei ao ver que ele se misturava com o sangue escarlate formando um tom de roxo quaresmal. Quando uma vadia esticou meu pescoço para me mordê-lo jogando minha cabeça para trás deixando livre, eu pude contemplar uma chuva de lava e sangue caindo sobre mim. Era algo que vinha lá do alto do prédio, onde a neblina estava púrpura agora.

    As setenta vezes setenta mulheres gritavam e, riam e, gozavam e, lambiam e, mordiam e, absorveram quase tudo de mim. Quando elas me colocaram sentado, pude ver que eu quase não tinha mais carne e sangue, o que gerou briga entre as Lucernas, elas se bateram caindo sobre mim. Meu punhal foi usado por uma delas como arma. Elas todas se violentavam deixando cair membros do corpo e assim, surgiram novas Lucernas, uma guerra sem fim sem vencedores ou perdedores. Eu estava solto, todavia no meio da briga, dos socos e punhaladas. Até que o punhal caiu no meio do lago de sangue e lava e eu consegui recuperar para e defender mesmo sabendo que a maldita arma faria gerar mais mulheres. Num enorme mar vermelho estávamos nadando com o nível acima da sacada já quase no primeiro andar, ocorre que os espelhos estavam tão sujos de sangue e lava, tão enferrujados que caíram sobre as mulheres que me amaldiçoaram por tudo. Eu estava tomado pela cólera e as ataquei com o meu fórceps. Elas se multiplicaram em muitos pedaços pequenos e ataquei todos, mesmo com alguns se defendendo mordendo partes de meu corpo já semimorto. Eu cortei tantos seres que havia infinitos pedaços boiando sobre o mar vermelho, eram fragmentos perdidos, pois como eu distinguiria meus filhos da lava?
      Eu lutei tanto que até perfurei o mar gerando tanto sangue e lava que as paredes do edifício apresentaram furos, o que ajudou o mar partir para fora e, portanto, o nível das águas quentes desceu. Prosseguiu minha guerra com as minhas filhas, elas se regeneravam, mas brigavam também entre si como antes. O punhal se perdeu de novo, mas sem que elas tomassem posses. Eu deitei sobre o fogo enquanto elas lutavam com punhos e chutes. Sozinhas, as várias deusas se destruíram convertendo-se em pétalas de rosas quentes caindo sobre mim. A filha remanescente, assassina das demais se aproximou de mim e disse:
  -----Foi por tu, ó meu virgem pálido!

      Lucerna veio agora vestida num traje roxo rico tal como eu também estava. Flutuávamos sobre o mar púrpuro, bem mais raso, naquele mesmo espaço, estávamos iluminados pelas primeiras luzes da manhã e embalsamados pelas pétalas de nossas filhas mortas que caíam. Havia mais silêncio que antes e nos aproximamos quando eu me afundei no lago e caí deitado num chão menos quente, menos frio e mais misericordioso.

Rommel Werneck


OS LÁBIOS DO VENENO





OS LÁBIOS DO VENENO

“O churl! drunk all, and left no friendly drop to help me after? I will
kiss thy lips. Haply some poison yet doth hang on them to make me die with a restorative.

 [Kisses him.]”
The Tragedy of  Romeo and Juliet. Shakespeare. Act V. Scene III


Jazia embalsamado o bom Romeu
Guardando nos seus lábios um veneno
Que no sabor fortíssimo e sereno
Foi-lhe tirado o mundo que era seu.

A dama Capuleto, em amor pleno,
Despertando, uma morte percebeu.
Entonces, ao punhal vil recorreu
Eternizando a dor no sangue ameno.

Mas, antes, contemplou bem Capuleto
O seu virgem mancebo lá deitado
Sobre o tão tenebroso e gris sepulcro.

Àquele resplandente rapaz pulcro,
Tomou dos lábios lúgubres do amado
O beijo como lânguido amuleto!



Rommel Werneck

MAGNO SONETO (Gaita galega em versos brancos)

 
 MAGNO SONETO
 
Minha primeira gaita galega*
 

Ah! Esses beijos que mandas nos poemas
Mas que não tocam jamais minha face!

São minuetos vazios do engano
São sanguinárias mentiras que contas

Oh! Esses lábios sedentos esperam,
Eles desejam um verso escrever,
Ação de graças, louvores intensos
Êxtases santos a Deus exalar


E se pudéssemos ó compor versos
Juntos casados colados perdidos
Quem sabe unidos faríamos mais!


E nossos lábios selados enfim
Professariam estrofes à noite
Vozes douradas num magno soneto!
 
*Na época (2010) porque hoje tenho outras. Soneto antigo, nunca tinha postado aqui 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

PROSADOR



Portrait of Paul Hugot (1878)
Author: Gustave Caillebotte



PROSADOR


A M.P.


Ando lendo este mau prosador
E por isto virei seu trovador


O romance sublime que fez
Me mostrou que desejo o escritor


O seu rosto me trouxe palavras
E que tento nos versos compor


As palavras perfeitas que escreve
Me tornaram seu novo cantor


Nos poemas preciso exultá-lo
Revesti-lo de grande louvor


La vem ele na grã procissão
Eu que levo nos ombros o andor


O deus grego caminha elegante
Algum Sol pode ter mais fulgor?


O barão de café, nos meus sonhos,
Surge lânguido em leve palor


Como príncipe, herói de seus contos
E antes mesmo de um beijo d’amor


Ele volta aos romances que escreve
Na fumaça, no fim, no vapor.


Rommel   Werneck

PLENO DE ESPLENDOR

Caspar David Friedrich · Cross in the Mountains (Tetschen Altar) 1808


"O grito que ora prendo é só por ti..."
Ronaldo Rhusso


Grita a Cruz as virtudes esquecidas
Gotejando fulgores, uns matizes
Que invadem minhas lúgubres feridas...


Há sacrossantas flamas que, em deslizes,
Encantam-me num êxtase de vidas
Dando alvuras aos sonhos infelizes


E penso que és tão pleno de esplendor


Porque o cedes a todos com amor!



Rommel Werneck 

CHEIRO DE CHUVA




Cheiro de chuva chegando p’ra mim....
O coração se encharcando de chamas....
A água que deixa chumaço sem fim...




Cheiro de chuva, uma flecha de drama
Fechando a chave o arrebol do jardim....
É enxurrada de haxixes e lamas!


E quando a chuva à luxúria se enfaixa


Minha paixão a teu charme se abaixa.




Rommel Werneck