sábado, 18 de outubro de 2014

O PERFUME DO PASSADO






        Eu estava simploriamente de vestido branco que era amplamente decotado, porém o decote estava fechado com amarras bem resistentes e pendia nos meus braços e nas costas um xale bem simples para uma noite de frio como aquela. Uma mochila significativamente pesada e uma sacola contendo cartazes que eu utilizaria no dia seguinte compunham minha expedição. As aulas na faculdade tinham acabado, eram aproximadamente dez horas e meia da noite e eu estava num ônibus com poucos passageiros, um navio de tão pouquíssimos tripulantes que pude me sentir a Rainha dos Mares. Sim, uma rainha eu queria ser para dominar a civilização, mas eu precisaria de um companheiro, um augusto imperador que virilmente me coroasse.

      Virei meu olhar para a direita e lá jazia um belíssimo cavalheiro esguio de preto trajando um longo sobretudo, camisa e calça sociais simples. Tinha uma pele de chocolate meio amargo, não era mouro, mas também não era caucasiano. Estava sentado ao meu lado, ereto no banco, folheando um caderno e sorrindo contemplativo ao lado da janela.

      Oh! Nunca antes eu tivera contato com um semideus. Sim! Era um Hórus dourado e sedutor, mas que um dia morreria como outro mortal qualquer. Qualquer?! Não, ele não era um humano simples, era um semideus, um Hércules majestoso, mas oh! Que blasfêmia a minha! Ele era Hórus, filho de Ísis e deus por excelência, era um dogma no qual eu quis acreditar. E que fragrância! Não haveria no mundo incenso como o perfume dele. Desde que eu reparara no duque eu senti o seu aroma incessante e perfeito. Era uma beleza que me incensava loucamente no alto precipício.       

        O caderno do meu rapaz trazia anotações de contas, despesas, referências industriais e comerciais enquanto o meu lá na mochila possuía análise sintática, análise literária, relações de variedades lingüísticas, termos em outros idiomas etc. Oh! Meu mancebo se vestia como um poeta gótico e ébrio, mas era um homem de negócios. Oh! Daniel era um homem das finanças, um senhor poderoso que nunca olharia para a humilde serva, mas que contabilizaria a escrava. Daniel não só folheava o material, mas também abria a mão sobre as folhas não deixando nenhuma parte sem seu membro vigoroso.

         Ó Daniel, pára! Oh! Não, não! Sim! Ele deslocou a mão direita do caderno para minhas costas e foi me massageando suavemente sendo que em alguns momentos batia em mim, porém ele se manteve frio sorrindo para o caderno. Oh! Maldito demônio! Como poderia fazer aquela boa ação de anjo sem me olhar na cara. Será que ao contrário dos outros homens ele não gostava de ver as moças excitadas e descompostas? Meus cabelos estavam antes semipresos, mas agora estavam soltos e eu zonza. Aí, ele rasgou o corpo do meu vestido e se pôs a lambuzar nos meus seios enquanto suas mãos massageavam-me as costas. E ria escandalosamente como nenhum homem outro faria e a massagem era simples e fraca. Disse-lhe:
-----Ora, seu viado! Tu não sabes que és homem e deves me arrombar decentemente?!

      Como Daniel estava caído em meus seios e eu inclinada, numa curva caímos no piso do ônibus dando gritos e todos os passageiros observavam a reação dele à minha bronca. Ele arrancou o cinto e lançava-o em minhas costas nuas e levantou a saia para agir de modo mais adequado, mas eu fugi para nossas poltronas onde ele quis me satisfazer, mas...

       Despertei menstruada do meu sonho rubro e reparei que Daniel não estava mais a meu lado. Desesperada estava, mas quis ser discreta, olhei para trás e vi meu rapaz de pé pronto para descer do ônibus. Infelizmente, não pude me despedir dele, não houve tempo, ele andava rápido. Como os homens são horríveis? Tão lentamente nos seduzem e nos desvirginam e tão rapidamente partem! O pior é que eu percebi que o perfume sumira com Daniel e no lugar da eterna fragrância, havia um cheiro horrendo e assustador, o pior aroma que sentira em vida. Oh! O que me consolava é que eu desci rápido daquele transporte mesmo frustrada com meu sangue derramado naquele transporte impuro.

       Andei pelas ruas escuras e me assustei novamente: reparei no meu vestido rasgado no peito e se estava rasgado era porque alguém rasgara e se Daniel me estuprara era porque não era sonho. O homem das finanças tinha mesmo tomado como amante a estudante de Letras. Que superno! A chuva caiu e antes de umedecer minhas cartolinas joguei meu xale sobre elas e sentei na mesa de um bar de esquina, um lugar com poucas pessoas e com música de rádio. Lá encontrei Iraci e Rita, sua mãe. Iraci e eu estudávamos juntas no tempo do colegial e há tempos eu não a via.

---- Nossa, menina, que saudade, me dá um abraço!---- disse-me minha amiga que estava vestida de saia longa e de blusa de lã----- Desde março não te vejo, há tempos!
---- No frio andando desse jeito? E ainda mais com o vestido rasgado? Vou pegar uma blusa pra você, menina! Ai neste frio, hein...---- era a fala de Rita preocupada comigo e saindo para me aconchegar melhor e avisar minha mãe que eu chegaria tarde por causa da chuva e porque eu não queria molhar os cartazes
----- Pra que os cartazes?---- perguntou Iraci
----- Pra trabalhos com meus alunos amanhã.

      Conversei com minha amiga e contei as novidades. Iraci tinha me falado que eu estava muito distraída e estranha. Corria o mês de junho e desde dezembro aquele bar lhes pertencia, fato que embora Iraci me contara na época do Natal eu não sabia, prova de como eu estava distraída, mesmo tendo reencontrado minha amiga em março num aniversário.

       Rita me trouxe um longo casaco de frio e agradeci especialmente. As duas me deixaram sozinha comendo e bebendo enquanto a chuva só piorava. De repente, senti novamente o perfume resplandecente de meu namorado do ônibus. O perfume de Daniel não era exalado de dentro do bar e sim de fora, era daquela rua vagabunda e soturna de lúgubres lobos que saía o almíscar sagrado de meu deus. Meus pertences estavam bem guardados com Rita, eu decidi seguir pela rua afora por meu cavalheiro solitário e perfumado, entretanto não achei certo seguir com o casaco de Rita, molhar algo que não era meu enquanto meus pertences estavam bem guardados e quentinhos. Deixei o casaco perto do caixa, aliás, era apenas de xale e com meu vestido rasgado que eu deveria encontrar meu amado. Fui pela tenebrosa tempestade seguindo a fragrância e quanto mais forte ficava o cheiro, mais eu corria mesmo cansada, menstruada e excitada.

      Eu não observava com medo as ruas sombrias, vazias e silenciosas, afinal era lá que eu habitaria para sempre, pois a droga tinha me tornado extasiada demais para que eu residisse num lugar quente e fofo. Eu queria sentir aquele aroma obscuro e apanhar de meu senhor. Conforme eu caminhava um círculo de névoa púrpura de perfume se formava. Cada vez mais o cheiro tornava-se mais forte e embriagador e embora eu conhecesse o bairro como a palma de minha mão, estava perdida e nem sabia como voltar. Além da neblina fragrante muito grossa e forte, eu via a figura de Daniel me circulando levemente. Ele me rodava para me deixar tonta e cada vez se aproximava mais até que desaparecia e voltava novamente. Houve um momento que vagamente me lembro em que ele deu uma forte gargalhada e daí em diante só me lembro de um manto púrpuro e etéreo me cobrindo.

      Oh! Que horrível foi quando eu acordei, quis vomitar meu coração numa latrina imunda, talvez menos escura e suja que meu corpo intoxicado. Eu dormira na casa de Rita que era ao lado do bar e acordei espirrando com febre e vomitando às sete horas da manhã. Enquanto eu jorrava em sangue, quatro pessoas conversavam no bar: minha mãe, o médico, Iraci e Rita.

----- Nem sei como agradecer por tudo que você fez, Rita e ao senhor também, doutor Rafael... Muito obrigada!
----- Oras! E se sua filha fosse minha filha? Nossa obrigação é cuidar das amigas!
----- Eu posso levar minha filha pra casa, doutor? Sei que aqui é ótimo, mas a casa dela é a casa dela...
     Antes que minha mãe me levasse de carro, Iraci veio até mim:
---- O que houve? Por que está assim?
---- Aquele perfume pecaminoso me intoxicou, acho que foi isto! Foi isto!
---- Que perfume? Não tem perfume, de que você ‘tá falando?
---- Iraci, eu reencontrei Daniel...

       Minha amiga exclamou assustada, mas eu já estava de pé indo para o carro que me levaria para casa.  Deixei Iraci pensando no meu problema, ela temendo minha perdição e eu compreendo que já estava de novo perdida. O tempo ainda estava úmido e frio, mas sem chuva. Ao longo do caminho, reparei pelo vidro do carro que tudo estava corrompido pela fragrância sublime e horrenda. As construções das ruas estavam cobertas pela grande névoa e minha alma clamava agonizante, gritei e bati no vidro querendo quebrá-lo para consumir a droga que eu tanto me fez dependente. O médico me segurou e impediu desgraça maior. Entretanto, no caminho entre a condução e o lar uma corrente de incenso penetrou em minhas narinas piorando meu estado de saúde. 

       Chegamos, enfim. O médico receitou remédios, uma alimentação saudável, uma série de exames e uma consulta com um psiquiatra. Em casa, tomei banho, troquei de vestido e permaneci deitada me alimentando. Minha mãe estava muito preocupada com meu estado de saúde, eu já me encontrava gripada e tísica. Era a gripe espanhola que meu rubro toureador me passara, era o mal-do-século aquele cheiro doce de veneno.

       Dois dias se passaram e pude notar pela noite que eu estava bem melhor. Minha mãe saíra para pegar açúcar emprestado na casa da vizinha enquanto eu andava pela casa, símbolo de meu progresso. Eu já vomitava pouco sangue, respirava melhor e conseguia ingerir alimento. É verdade que os dois dias foram os piores de minha vida, eu sentira fortíssimo desejo de cheirar a droga, mas ela não conseguia então eu tinha destruído móveis de meu quarto, queimado meus livros e cheirado diversos desinfetantes mesmo com minha mãe, Rita, Iraci e doutor Rafael tentando me impedir e decidindo me internarem. Mas, o pior passara. Agora, eu ainda estava doente, porém em um estado menos delicado e que me permitia sonhar novamente. E sonhei...

        Ao me aproximar da porta de entrada de minha casa, uma longa e magra porta de vidro, eu vi uma coluna estranha do lado de fora. O vidro distorcia as imagens e não pude ver direito o que era, ocorre que a coluna ganhava formas menos retas e simples, pude logo contemplar meu amante. Daniel estava lá triunfantemente sério e parado. Eu toquei no vidro com o desejo de me entregar novamente. Julguei estranho reencontrar meu anjo e não a poluição. A placidez reinava naquele instante absoluto até que algo que saía das mãos dele atravessou rapidamente a porta de vidro e tomando um susto eu me inclinei na parede segurando na cortina da janela ao lado. Meu pálido virgem lançara um estranho objeto, uma pedra que destruiu meu telhado de vidro. Havia um bilhete junto à pedra, mas a força de meu Hórus era tão grande e nobre que o papel jazia num outro canto distante da rocha. Eu li a mensagem e conforme lia, ouvia bem alto a voz suave de meu anjo caído declamando as duas palavras:
---- Good night!

       Virei e observei a pedra lançada quebrada em mil pedaços de vidro. Ela se dividira em fragmentos quando atravessava o meu telhado de vidro. Era um conjunto de pedaços do vidro de minha porta e do artefato dele. Mas, espera! Não era uma rocha! Era um recipente fragmentado, num fragmento maior, uma imagem de meu Hórus dourado e impuro. E havia uma tampa e, era um pedaço retangular, e um pacote simples e, mais pedaços lá e, algo vindo daquele velho frasco...
---- Não!



Rommel Werneck

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