sábado, 18 de outubro de 2014

REPRODUÇÃO ASSEXUADA

 


    Estávamos dentro de um onipotente edifício revestido de branco e de espelhos. Apresentava vários tons do branco lutuoso, desde o tom mais puro e pálido até o mais escuro próximo do chumbo. O prédio tinha placas de metais, eram paredes todas espelhadas. Creio que do lado de fora também deveria seguir a regra de espelhos e tons de branco além de ser talvez o maior da rua porque olhava para seu teto e não havia fim, havia nevasca caindo sobre mim e uma neblina cobrindo o topo cinzento. Dentro onde estava era um grande salão, um hall, uma recepção contendo uma  bela fonte ao centro. Eu estava numa sacada defronte à entrada principal e ao monumento de águas.

   Lucerna vestia um longo vestido branco de organza e rendas cujo corpo era bem justo e coberto de babados e volumes assim como a saia. Ela estava parada de costas para mim, num espaço entre a fonte e a porta principal. Da sacada eu gritava por seu nome em vão e apenas o eco tinha piedade de mim. De repente, ela se virou, veio rumo à fonte e me acenou. Eu, extremamente ansioso, planejei ir até ela que já se banhava nas águas se despindo, exibindo, clamando por mim, fazendo gestos.  Quando me preparei para pular do alto da sacada para cair na fonte, que, aliás, estava maior que antes, vi um rapaz vindo em minha direção me procurando. Mas oh! Que terror! Ele não fazia sinais para mim, apenas respondia pela bela jovem que lhe clamava na fonte, ou seja, minha tenra donzela Lucerna. Ele saltou rapidamente e ali na fonte os dois se extasiaram de lava luxuriosa.

    Entretanto, minha virgem pálida fugiu seminua dele correndo para fora da fonte e para diversos lados rindo sempre. Ele gritava dizendo que a domaria, mas em vão, até que ela esteve próxima de mim e soltou os panos ficando completamente nua e lúbrica. Era Vênus resplandecente nascendo para mim. O meu membro viril deleitava-se com aquela imagem divina de beleza. A minha deusa dançava para mim jogando os cabelos e ria belamente, porém sempre se afastando de mim. Eu me embriagava na fornicação distante, em movimentos viris profanadores e prazerosos. Quando atingi o ponto máximo de êxtase e fulgor, ela riu exageradamente e num rodopio caiu da sacada desaparecendo. Após ter saciado meu desejo, mesmo que de modo incompleto por não tê-la tocado, limpei-me nas águas da fonte porque eu estava maculado do sangue gerador da raça humana que exalei por minha namorada.

    As quedas d’água da fonte confundiram-se com minhas lágrimas. Eu passei a observar o nojo da situação que eu tinha vivido: minha namorada me ignorara e seduzira tanto a mim e a outro rapaz fazendo-nos sofrer e chorar enquanto a deusa apenas ria e vagava. Era uma dominadora ao nos seduzir, uma terrível deusa exigindo de nós oferendas, cultos, templos e preces. As preces eram as piores, pois ao prestarmos reverência, ficávamos sempre abaixo dela. E se Lucerna nos dominava na religião do amor, ela também deveria nos dominar no leito conjugal, lá a dama de branco, minha namorada virgem, tornar-se-ia uma verdadeira cigana cortesã, a mais bela Margarida Gautier da face da terra, a minha lasciva Madame Bovary e minha pura e quente Lucíola.

    Resolvi vagar pelo prédio, subir andares, enfim, circular para que pelo menos o belíssimo piso branco do hall não fosse o único espaço manchado por minhas lágrimas. Gemi de dor pelos corredores e salas por ter amado, adorado, aclamado, admirado, masturbado aquela leviana Lucerna. Ó Lucerna injusta! Ó perdição imortal, eu já estava morto pelo sangue do pecado e tudo por causa da terrível deusa. Eu precisava me recompor, apenas lavar minhas partes na fonte não adiantava, eu precisava que Lucerna voltasse e me julgasse belo, que me prestasse reverência, culto e que eu fosse deus. Chamei minha namorada, mas como ocorrera antes, eu estava perdido e o eco sombrio somente respondia. Eu deixei as lágrimas formarem rios por onde eu passava, subi os elevadores correndo rumo ao ponto mais alto para lá arquitetar uma vingança, mas o edifício não tinha fim e acabei descendo num andar qualquer após muitas horas de espera. Lá eu vasculhei tudo, procurei nas várias salas por minha deusa e por meu rival. Agora eu pretendia torná-lo um aliado, um amigo para me vingar dela. Nós a mataríamos juntos, nós a cozinharíamos juntos. Ele me ajudaria a rasgar o peito dela com meu punhal, ele também era vítima, era um cruzado enganado pelo demônio, merecia o direito de se vingar, ele seria meu escudeiro, meu vizir, meu melhor amigo, meu amante, meu esposo!

   Oh! Todavia nada encontrava e resolvi sentar numa cadeira. Lá adormeci um pouco e ao despertar deparei que minha calça ainda estava suja da seiva geradora. Como eu teria me sujeitado a tal condição durante o sono? Será que eu teria novamente idealizado minha Lucerna ou aquilo ainda era resto de meu êxtase daquela última vez em que apreciei minha Vênus? O que importava era que era preciso eliminar o mal pela raiz para que as flores venenosas não florescessem. A minha mão direita era terrível, havia a necessidade de destruí-la, afinal era menos doloroso abolir minha mão do que continuar com ela e praticar crimes sexuais. Eu não agüentava mais minha excitação ao pensar em Lucerna e ver seu fantasma na minha mente e meu punhal cortou o mal para que o fim do bem sobrevivesse pelo menos. Foi algo muito doloroso que nunca saberei descrever, eu me desfiz do barro que Javé me concedeu no Gênesis e pequei novamente. Mas era um pecado para evitar algo pior, um pecado pelo pecado, um pecado para não haver outro de circunstância mais elevada.

    Eu cortei minha mão direita, enrolei aquele pedaço de carne no meu cravat que deixei num canto da sala. Pus-me a vagar pelo prédio novamente buscando alguém para fazer um curativo, pois eu já compreendera que Lucerna estava morta ou desaparecida para sempre tal como o rapaz. Eu continuei vagando durante muito tempo. Lembro-me de ter descido e subido muitos andares a ponto de atingir parte da neblina do topo.

     De repente, escutei um barulho sincronizado e delicado que aumentava cada vez mais. Olhei para trás e vi uma forma reta rubra me seguindo, mas que terminava numa figura circular no chão. Observei mais atentamente e com uma visão mais fria e com menos medo e deduzi: era um braço ensanguentado me seguindo, o meu braço! Meu braço direito estava intacto, era apenas a mão que eu destruíra para sempre, mas oh! Que imagem de morte e vida! Minha mão gerara um braço, crescera como um ser vivo. Ao cortar meu braço, eu gerara uma vida, um ser.

    Era possível? Como? Eu estudara no colégio dos jesuítas que certos animais eram assexuados, bastava eliminar uma parte do corpo e ocorreria a reprodução, mas seria eu uma estrela do mar? Eu poderia gerar uma vida a partir de um braço? Mas como se antes eu tinha feito práticas indevidas e lançado ao piso branco do suntuoso prédio meu leite produtor de homens? E o braço lançado da estrela do mar se regenera, fato que a mim não acontecera. Mas espera! Oh! Minha mão voltara misteriosamente, ela se regenerara tal como numa estrela do mar ocorre. Mas como isto me ocorreu? Eu sempre senti desejo por outros seres, sempre amei as mulheres, senti até mesmo desejo por Lucerna, minha deusa miserável! Eu tivera amigos queridos, rapazes e garotas que não amavam nem pessoas do mesmo sexo ou do oposto, porém tais pessoas assexuadas jamais gerariam outros seres apenas por uma queda de cabelos, por exemplo. Mas eu criara um ser a partir de minha própria mão excluída.

    Como poderia surgir de mim um ser que fosse minha imagem e semelhança? Este pobre ser nascera de mim, como eu cuidaria dele e o amaria? Será que eu lhe seria um bom pai? Ele nascera, crescera e obviamente morreria. Eu precisava destruir o meu filho. Enquanto eu fazia todas as indagações, o meu filho andava pacífico e suavemente pela sala por vários lados, mas crescia tanto que já surgira um ombro! Precisava fazer o aborto que não fizera. Precisava matar meu filho e assim o fiz: meu punhal cortou o ser em três pedaços, a parte do ombro ficou solta assim como o braço também ficou independente da mão mãe. Lúcifer revoltou-se contra mim furiosamente e as três partes correram em minha direção, eram três seres horrendos agora! Oh! Que terror! Os três puxavam meu sobretudo e não tardou para meu filho braço desse socos no meu rosto para que eu caísse e os três rasgassem minha camisa de rendas e babados mordendo meu tórax desfazendo meus músculos e meu sangue azul. Reagi dando um circulo assassino com meu punhal afastando os três seres de mim, mas criando mais membros de família.

     O elevador veio me atender e desci mesmo com as crianças grudadas no vidro. Logo, elas caíram assim como Lucerna, o que deixou mais temeroso pelo elevador descer. Enfim, desci ao hall, voltei ao meu lugar de origem, passei nas proximidades da fonte e fui para a entrada principal que de repente ficou bloqueada pelos monstros. Eles eram sete. Eram sete filhos que eu tinha. Era a inveja daquele rapaz que se encontrava morto ou fora daquele prédio, livre de meus demônios. Era soberba, grande vaidade, por me julgar um nobre vitoriano, um duque de sangue azul mesmo eu sendo um grave pecador. Era preguiça de ter rezado e de não ter uma vida menos obscura. Era gula por refeições extravagantes e avareza para com os mais famintos. Era luxúria e ira que eu sentia por Lucerna. Ela era mãe de meus filhos, porque eles nasceram indiretamente dela.

    Oh! Os nossos filhos me perseguiam e eu corria pela sala com o punhal na mão para me defender, quando estive a caminho de retornar para a sacada, avistei um filho meu de corpo quase completo. Era um ser de longo vestido de rendas e babados em tom escarlate tal como a pele, apenas a cabeça ainda não estava lá. Olhei para as laterais e pude ver a imagem do ser rubro refletido nos espelhos e vindo em minha direção. Pude ver também os outros seres quase já bem crescidos quase iguais, eu pensei que assassinando a mão de cada um seria lógico que todos morressem, mas foi inútil, surgiram novos filhos e todos cresceram tornando-se iguais à virgem escarlate. As cabeças foram se formando e puder ver pelos espelhos e ao vivo as mil imagens de Lucerna numa versão satânica e sem nenhuma áurea pureza.





     Minhas filhas tinham semblantes sedutores agora, eram muitas, eram setenta vezes setenta Lucernas que me cercaram na fonte. Ali, onde eu me limpara, brotava sangue numa força de tempestade. O sangue saía da fonte como num vazamento e não com naturalidade e harmonia de uma fonte normal como antes. Era sangue caindo nos espelhos, sangue no chão e no meu corpo, sangue sustentando as Lucernas. O hall do prédio todo estava decorado de diversos tons de vermelho, desde o mais róseo até o mais forte escarlate. O sangue inundava-me e eu me afoguei, tentei usar o punhal, mas foi impossível. As mulheres me jogaram na fonte, ali arrancaram minha calça e rasgaram de vez minha camisa e sugaram meu sangue, meus músculos no tórax, na boca, no pescoço, nos genitais e em todas as outras partes do corpo, porque eram muitas mulheres. Elas não estavam apenas terminando o trabalho que começaram quando nasceram, elas agora me maculavam e saciavam meus desejos. Meu sangue azul, prova de minha virgindade, escorria pela fonte e chorei ao ver que ele se misturava com o sangue escarlate formando um tom de roxo quaresmal. Quando uma vadia esticou meu pescoço para me mordê-lo jogando minha cabeça para trás deixando livre, eu pude contemplar uma chuva de lava e sangue caindo sobre mim. Era algo que vinha lá do alto do prédio, onde a neblina estava púrpura agora.

    As setenta vezes setenta mulheres gritavam e, riam e, gozavam e, lambiam e, mordiam e, absorveram quase tudo de mim. Quando elas me colocaram sentado, pude ver que eu quase não tinha mais carne e sangue, o que gerou briga entre as Lucernas, elas se bateram caindo sobre mim. Meu punhal foi usado por uma delas como arma. Elas todas se violentavam deixando cair membros do corpo e assim, surgiram novas Lucernas, uma guerra sem fim sem vencedores ou perdedores. Eu estava solto, todavia no meio da briga, dos socos e punhaladas. Até que o punhal caiu no meio do lago de sangue e lava e eu consegui recuperar para e defender mesmo sabendo que a maldita arma faria gerar mais mulheres. Num enorme mar vermelho estávamos nadando com o nível acima da sacada já quase no primeiro andar, ocorre que os espelhos estavam tão sujos de sangue e lava, tão enferrujados que caíram sobre as mulheres que me amaldiçoaram por tudo. Eu estava tomado pela cólera e as ataquei com o meu fórceps. Elas se multiplicaram em muitos pedaços pequenos e ataquei todos, mesmo com alguns se defendendo mordendo partes de meu corpo já semimorto. Eu cortei tantos seres que havia infinitos pedaços boiando sobre o mar vermelho, eram fragmentos perdidos, pois como eu distinguiria meus filhos da lava?
      Eu lutei tanto que até perfurei o mar gerando tanto sangue e lava que as paredes do edifício apresentaram furos, o que ajudou o mar partir para fora e, portanto, o nível das águas quentes desceu. Prosseguiu minha guerra com as minhas filhas, elas se regeneravam, mas brigavam também entre si como antes. O punhal se perdeu de novo, mas sem que elas tomassem posses. Eu deitei sobre o fogo enquanto elas lutavam com punhos e chutes. Sozinhas, as várias deusas se destruíram convertendo-se em pétalas de rosas quentes caindo sobre mim. A filha remanescente, assassina das demais se aproximou de mim e disse:
  -----Foi por tu, ó meu virgem pálido!

      Lucerna veio agora vestida num traje roxo rico tal como eu também estava. Flutuávamos sobre o mar púrpuro, bem mais raso, naquele mesmo espaço, estávamos iluminados pelas primeiras luzes da manhã e embalsamados pelas pétalas de nossas filhas mortas que caíam. Havia mais silêncio que antes e nos aproximamos quando eu me afundei no lago e caí deitado num chão menos quente, menos frio e mais misericordioso.

Rommel Werneck


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