sábado, 8 de novembro de 2014

ANADIPLOSE

"ANADIPLOSE

Repetição de uma palavra(s) em posição final numa frase ou num verso no princípio da frase ou verso seguinte. Por exemplo, o seguinte poema de Manuel Bandeira, que abre e fecha com esta figura: "O córrego é o mesmo, / Mesma, aquela árvore, / A casa, o jardim. / Meus passos a esmo / (Os passos e o espírito) / Vão pelo passado, / Ai tão devastado, / Recolhendo triste / Tudo quanto existe / Ainda ali de mim / - Mim daqueles tempos!" ("Peregrinação", Obras Poéticas, Minerva, Lisboa, 1956). Trata-se de uma figura de retórica mais frequente em textos poéticos. O efeito de cascata pretendido é o de reforçar o valor semântico do termo repetido, que funciona como eco, fazendo recordar o processo medieval do leixa-pren. Foi bastante explorada pelos poetas barrocos, como no soneto de Gregório de Matos: “Contempla na borboleta exemplos do seu amor”: Tu a vida deixas, eu a morte imploro, / Nas constâncias iguais, iguais nas famas.” (Poetas do Período Barroco, apres. de Maria Lucília Gonçalves Pires, Comunicação, Lisboa, 1985, p.263). Como figura, a anadiplose apenas diz respeito à construção de um texto e não ao seu sistema de ideias, que dificilmente se altera com o seu uso.

anáfora; epanalepse; epanadiplose; epífora; gradação; quiasmo; refrão"

Carlos Ceia




É verdade, meu Deus, que hei delinqüido,
Delinqüido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.


Maldade, que encaminha à vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido;
Vencido quero ver-me, e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.


Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.



Luz, que claro me mostra a salvação,
A salvação pertendo em tais abraços,
Misericórdia, Amor, Jesus, Jesus.



GREGÓRIO DE MATTOS



Quando se fala em anadipolse, este belo soneto sacro é sempre citado, mas há outros exemplos além dos apontados pelo professor Carlos Ceia.
O escritor catarinense Cruz e Souza utiliza neste trecho:


“Sonho Profundo, ó Sonho doloroso,
doloroso e profundo sentimento!
Vai, vai nas harpas trêmulas do vento
chorar o teu mistério tenebroso”.



No início do ano fui homenageado num soneto com anadiplose escrito pelo adolescente Bruno Fagundes Valine que utiliza o heterônimo Poeta Lendário.



Rommel Werneck
A um doce sonetista gótico, Rommel Werneck.



Já asas não as tenho mais!... Oh, asas!...
Oh asas, sem vós?... Como irei ao céu?...
Céu, quão longínquo ’stou de teu grand’ véu!...
Véu, por que de teu toque tu me atrasas?...



Sinto-me alado quando tu me abraças!...
Abraças-me e de ti torno-me réu?...
Réu?... Mas emancipado a um fogaréu?...
Fogaréu!... Santo fogo, santas brasas!...



De ti nunca senti sinestesia?...
Sinestesia, a mi, me tens tocado!...
Tocado, em sonhos, doce cortesia...



Cantar-te-ia a ti se eu tivesse voz!...
Voz de teu timbre doce e delicado?...
Delicado coral somente a nós...


(Bruno Fagundes Valine)


Anterior a este, meu soneto abaixo registra a anadiplose nos tercetos, notem que também utilizei um recurso de repetição nos quartetos:




Só! Sem bonança dança, luz, ó luz!
Na solidão perpétua do viver...
Só! Com medo segredo, cruz, ó cruz!
No luto eterno deste alvorecer...

Só! Sem amor calor, alguém, ó alguém!
Na necrópole lúgubre e perdida...
Só! Com sombra que assombra, alguém, ó alguém!
Na floresta sangüenta desta vida...

Só! Chorando exalando negro sangue,
Sangue horrendo, infeliz, morto e ruim,
Morto e ruim querendo amor e dó,

Dó e caritas, amor, tudo tão só.
Só! Sem cor, sem ninguém, sem luz, sem fim!
Afundando-se neste rubro mangue...


Rommel Werneck


Poderíamos treinar esta figura de estilo tão esquecido e sublime.

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